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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Um poema para cada mês - Julho 2021

Sofia
26
Jan21

Só sei que queria partilhar um poema dele, porque não seria justo não o incluir nesta espécie de desafio que fiz a mim mesma. Os meses de Julho e Agosto lembram-me a praia. Se pensar na praia e no mar, há uma poetisa que se destaca e que deixei para a próxima partilha. Logo a seguir, há um outro poeta que me inspira e que nos leva muitas vezes à beira-mar com as suas palavras.

 

A escrita é a minha primeira morada de silêncio

a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras

extensas praias vazias onde o mar nunca chegou

deserto onde os dedos murmuram o último crime

escrever-te continuamente... areia e mais areia

construindo no sangue altíssimas paredes de nada

 

esta paixão pelos objectos que guardaste

esta pele-memória exalando não sei que desastre

a língua de limos

 

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos

as manhãs chegavam como um gemido estelar

e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

 

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio

desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

 

Al Berto

Um poema para cada mês - Junho 2021

Sofia
24
Jan21

Espero que estejam a ter um bom Domingo e que se encontrem bem. Para quem ainda não votou, não se esqueçam e não tenham medo. (Até ao lavar dos cestos é vindima.) Pelo que tenho visto e comentado com quem conheço, as filas não estão impossíveis de aguentar e as coisas até estão organizadas. Confesso que ando com medo do bicho... Como o meu namorado hoje trabalhava, aproveitámos e fomos votar assim que as urnas abriram. Espero que o meu voto sirva para afastar certos bichos. Também ando com medo do vírus (já me bastou uma vez e tem sido terrível ver o aumento de casos), mas há outros vírus por aí que também são perigosos e com os quais também temos de ter cuidado.

Pensei não continuar com esta ideia de partilhar um poema para cada um dos meses deste novo ano (é que por este andar o ano já nem é novo), mas é importante também sabermos levar as coisas até ao fim. Não tenho aqui passado tanto como gostaria. Não posso prometer ser muito assídua aqui no blog e não sei se o mesmo não ficará ainda mais parado. A mudança de emprego tem corrido bem, mas agora o meu computador é também a minha ferramenta de trabalho e não tenho muita vontade de lhe pegar quando não estou a trabalhar. Espero que percebam. Há uns tempos ao deslocar-me de Uber para o trabalho, o motorista que me transportava comentou, ao falarmos sobre a questão do confinamento e teletrabalho, que quando não estava a trabalhar não lhe apetecia pegar no telemóvel e andar de carro, nem que fosse como pendura. Explicou-me logo que não era por não gostar do que fazia, mas porque era importante desligar. Percebi-o, claro. Agora faço praticamente o mesmo.

Não escolhi o poema de hoje por o associar ao mês de Junho ou à época do ano. Escolhi-o porque é urgente. É urgente, num momento como este, partilhar amor, partilhar alegrias, permanecer. Num dia como o de hoje, de eleições, é urgente lembrarmo-nos disto. Este é um dos meus poetas de coração.  Acho que li este poema pela primeira vez quanto tinha uns 9 anos. A minha mãe comprava-nos os livros da escola e, ainda antes das aulas começarem, eu começava logo a espreitá-los... Virava as páginas, lia algumas coisas e ficava cheia de vontade de começar as aulas para aprender todas aquelas coisas novas. Acho que este poema estava no meu livro de Português do 4.º ano. Como todos os seus poemas, este também ganhou outra profundidade com a idade. É tão bom envelhecer acompanhada de poesia tão bela como a do Eugénio de Andrade!

 

Urgentemente

 

É urgente o Amor,

É urgente um barco no mar.

 

É urgente destruir certas palavras

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

 

Cai o silêncio nos ombros,

e a luz impura até doer.

É urgente o amor,

É urgente permanecer.

 

Eugénio de Andrade

Um poema para cada mês - Maio 2021

Sofia
17
Jan21

O mês de Maio é, para mim, um mês especial, pois foi o mês em que comecei a namorar com o meu companheiro. Assim, não me alongando muito, escolhi um poema que já tinha pensado partilhar anteriormente e que acho fantástico pelas palavras e pela sua forma.

Este poeta foi uma bela descoberta numa aula de inglês da licenciatura  (Uma aula com o melhor professor de inglês que alguma vez tive... O conhecimento linguístico e as escolhas literárias utilizadas para o ensino faziam daquelas aulas algo bastante interessante e um pouco fora do comum...)

 

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear;and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
                                                      i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it’s you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you
 
here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart
 
i carry your heart(i carry it in my heart)
 
 
E. E. Cummings

Um poema para cada mês - Abril 2021

Sofia
10
Jan21

Continuando aquilo a que me propus, venho hoje partilhar mais um poema. Teria gostado de continuar com as publicações de dia 1 a 12 sem interrupções, mas a verdade é que, durante os dias úteis, não tenho paciência para estar no computador depois do horário de trabalho. Não me levem a mal. Tendo dito isto, é provável que as publicações sejam sobretudo aos fins-de-semana.

Em Abril, já estamos na Primavera que, para mim, é a estação em que podemos olhar à nossa volta e maravilhar-nos mais rapidamente com a beleza da natureza. Quando nos apercebemos, as ervas estão mais verdes, as flores aparecem para dar mais cor aos nossos dias, os dias estão mais luminosos, os pássaros ouvem-se cantar...

Partindo desta ideia, lembrei-me de que esta seria a altura ideal para partilhar Pessoa. Se dúvidas houvesse, a ideia do nascimento de Alberto Caeiro em Abril confirmou-me que seria ele o escolhido. Falar do que o Fernando Pessoa é para mim... Bem, podia dizer/escrever muita coisa, mas ia sempre ficar muito por dizer/escrever. Para mim, Pessoa foi o primeiro. Foi a grande descoberta, foi a grande paixão, foi a grande incógnita, foi o grande amor, foi a grande revelação... Ainda hoje o vou descobrindo e redescobrindo. Para quem também se sente assim quando fala de Pessoa, como foi descobri-lo? Deve ser uma recordação interessante. 

 

Quando vier a primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

 

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

 

Se soubesse que amanhã morria

E a primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

 

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Brincar ao desassossego

Sofia
03
Jan21

Tenho de desabafar sobre este assunto... Não é bom cantar músicas quando estamos com demasiada energia e alegria dentro de nós... Além de perdermos a noção do volume, há uma grande probabilidade de se trocarem as letras... Por exemplo, ao cantar a "Bellevue" dos GNR, pode sair algo como "era só para brincar ao desassossego" em vez de "era só para brincar ao cinema negro". E vá-se lá perceber a escolha musical que, efectivamente, não combina com o estado da coisa...

( Bernardo Soares likes this post.)

 

P.S.: Peço desculpa se o título vos desiludiu e esperavam algo mais profundo. 

 

A minha vida é como se me batessem com ela.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego