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Chamava-se Si, Lá ou Dó, tanto faz. Na realidade, o nome não interessava porque não falava consigo mesma.
Às vezes, enquanto comia uma colher de gelado, imaginava o seu nome dito como se fosse o nome de uma grande epopeia.
Chamava-se Si, Lá e Dó e, em vez de pés velozes como os de Aquiles, tinha mãos frenéticas numa máquina de escrever antiga. Sujava-se frequentemente de tinta, as folhas ficavam entaladas no carro, tortas, e ela acabava por ter de as puxar, rasgando-as um pouco. Com os dedos manchados pela tinta e um conjunto de folhas rasgadas ao seu lado, Si repetia a sua história, na esperança de que algum dia fizesse sentido.
Cada vez que metia uma folha nova no carro da máquina, imaginava-se um herói a cumprir o seu destino. Carregava nas teclas como quem atira flechas ou espeta lanças nas costas de um outro destino.
Chamava-se Lá, Si e Dó e bebia café como se isso fosse o néctar dos deuses. Olhava depois para as borras no fundo da chávena e pensava em como gostaria de saber adivinhar o que aquilo queria dizer – se é que as borras dizem alguma coisa.
Chamava-se Dó, Si e Lá e era dócil como uma manhã de Primavera. Os dedos sujos de tinta eram como terra fértil e antecipavam os frutos da próxima estação. O seu sorriso queria ser um sol tímido que desperta calmamente e espraia os seus braços de luz por todo o lado.
Não tenham dó de mim quando eu morrer, pensava.
Às vezes escrevia deitada, com o seu ventre para baixo, os cotovelos apoiados na cama e as pernas a balançarem. Não é prático e vou ficar com dores de costas, pensava, enquanto continuava assim, porque lhe sabia bem.
Ana Sofia Alves
21 de Julho de 2025