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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

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um mundo num grão de areia

Sinapses de néon vermelho

Sofia
27
Jul25

As sinapses de néon vermelho

querem fazer chamas de silêncio.

 

Há um túnel onde o corpo se refugia

e onde as horas são fragmentos de espelhos.

 

As mãos espelham as ausências e a boca

multiplica-se em desejos acesos.

 

Não morri ainda as vezes necessárias.

 

É noite e há espelhos de alvorada nas esquinas

das ruas que percorremos com os olhos vendados.

 

Vejo melhor nesta escuridão de silêncio quente,

oiço melhor dentro da tua pele acesa e cálida,

e aos meus ouvidos chegam-me lampejos de palavras.

 

É noite de novo, mesmo quando o sol brilha alto.

Multiplicamo-nos nos espelhos da nossa pele,

nos poros abertos que nos fazem extravasar.

 

Ana Sofia Alves

27 de Julho de 2025

Papoilas

Sofia
24
Jul25

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Imagem gerada por IA

 

Partilhamos o mesmo enfado que nos mói porque
insistimos em existir e ver nos olhos dos outros a nossa imagem.
Colamos com água da chuva recortes de revistas e jornais.
Colamo-los à calçada gasta e espezinhamo-los em saltos sem fé.
Calcamos esses recortes como se quiséssemos extrair deles
alguma cor, mas sabemos que só sai um vinho negro e gasto.
Gastas-te nos seus olhos. Gastas-te nos saltos que nem dás.
Queres cair de pé? Queres ver o mar? Queres ver as flores?
Vemos o rio que passa só e sentimo-nos rio. Mas o rio já lá vai
e nós ficámos aqui, na berma. Queres ver o rio? Queres ver o mar?
Tudo é mais belo quando as horas se calam e os dias são papoilas.
Tudo é mais belo quando existes vermelho e eu sou fado encarnado.
Posso ser uma papoila. Podes ser talvez um cravo.
 
Ana Sofia Alves
24 de Julho de 2025

Recomeços

Sofia
24
Jul25

No Sábado já larguei a 2ª canadiana e a recuperação está a ir bem. Na fisioterapia já me tinham dito que estava óptima e para não me preocupar demais. Hoje o médico disse que estava muito bem e que agora é continuar a fisioterapia, já menos vezes por semana, para ficar ainda melhor.

Amanhã regresso ao trabalho e já em modo presencial  Sinto-me numa espécie de regresso às aulas, porque nunca tinha estado mais de 2 semanas sem trabalhar.

Este período pós-operação tem sido impressionante! Sinto que para além de estar a curar o corpo tenho estado a curar o espírito.

Tenho andado a organizar a casa que ficou um pouco confusa. Quando não conseguia andar facilmente, o meu namorado e a minha irmã organizaram muitas coisas de um modo diferente e agora estou confusa. Ser baixinha faz-me preferir uma organização prática, sem coisas em sítios muito altos.

Preciso de manter o meu tempo para a leitura e para a escrita escrita após regressar ao trabalho. Apercebi-me de que isso me estava a fazer imensa falta.

Sábado conto ver os meus amigos benfiquistas e ir, finalmente, à Luz! Vai ser uma lufada de ar fresco. Talvez vá com um dos novos calções do SLB que o meu namorado me ofereceu durante esta fase. Antes não estava à vontade para usar calções, mas, como passei a ter de os usar nas fisioterapia, já não estou muito preocupada. São bastante confortáveis e sinto-me bem com eles. O resto não interessa.

Sinto-me a recomeçar com o  joelho direito 

Abro os olhos e sangro

Sofia
22
Jul25

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Imagem gerada por IA

 

Abro os olhos e sangro como mulher.

O meu corpo sangra e eu chamo

nomes a quem me fez assim.

 

Sangro como letras que se perdem

em neblinas opiáceas,

porque eu sinto à flor da pele

e sou feita de química que me

desfaz em pedaços e sangue.

 

Escrevo com este sangue

que me dá vida e força aos dedos.

Escrevo como se o sangue fosse tinta

e eu precisasse de me sentir mulher

enquanto escrevo.

 

Sangro também na escrita,

esse reduto onde o meu corpo termina

e a minha alma começa a nascer do sangue.

 

Ana Sofia Alves

22 de Julho de 2025

Si, Lá ou Dó

Sofia
21
Jul25

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Imagem gerada por IA

 

Chamava-se Si, Lá ou Dó, tanto faz. Na realidade, o nome não interessava porque não falava consigo mesma.

Às vezes, enquanto comia uma colher de gelado, imaginava o seu nome dito como se fosse o nome de uma grande epopeia.

Chamava-se Si, Lá e Dó e, em vez de pés velozes como os de Aquiles, tinha mãos frenéticas numa máquina de escrever antiga. Sujava-se frequentemente de tinta, as folhas ficavam entaladas no carro, tortas, e ela acabava por ter de as puxar, rasgando-as um pouco. Com os dedos manchados pela tinta e um conjunto de folhas rasgadas ao seu lado, Si repetia a sua história, na esperança de que algum dia fizesse sentido.

Cada vez que metia uma folha nova no carro da máquina, imaginava-se um herói a cumprir o seu destino. Carregava nas teclas como quem atira flechas ou espeta lanças nas costas de um outro destino.

Chamava-se Lá, Si e Dó e bebia café como se isso fosse o néctar dos deuses. Olhava depois para as borras no fundo da chávena e pensava em como gostaria de saber adivinhar o que aquilo queria dizer – se é que as borras dizem alguma coisa.

Chamava-se Dó, Si e Lá e era dócil como uma manhã de Primavera. Os dedos sujos de tinta eram como terra fértil e antecipavam os frutos da próxima estação. O seu sorriso queria ser um sol tímido que desperta calmamente e espraia os seus braços de luz por todo o lado.

Não tenham dó de mim quando eu morrer, pensava.

Às vezes escrevia deitada, com o seu ventre para baixo, os cotovelos apoiados na cama e as pernas a balançarem. Não é prático e vou ficar com dores de costas, pensava, enquanto continuava assim, porque lhe sabia bem.

 

Ana Sofia Alves

21 de Julho de 2025

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