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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

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Sofia
10
Jul25

Este blog fez ontem 5 anos e eu, como chanfrada que sou, nem aqui vim.

Confesso que, conhecendo o meu historial de blogs apagados, nunca pensei que este espaço chegasse aos 5 anos. É um sobrevivente!

Podia aqui ter colocado o poema "Aniversário" de Álvaro de Campos e de que tanto gosto, mas, ando demasiado bem disposta, mesmo quando a melancolia se quer abeirar de mim. Podia só ter partilhado uma música no gramofone, mas também não me senti para aí virada. Assim, fiquei-me pela existência. (E já é bom )

Celebro hoje, agradecendo quem por aqui vai passando  Bem hajam! (Queria antes um copo de champanhe, mas o Sapo só tem mesmo um copo de imperial - ou fino, para quem é do Norte.) Os blogs continuam a ser um tesouro escondido na Internet.

 

Entretanto, a recuperação parece estar no bom caminho. Ontem já comecei a colocar carga na perna direita e hoje já vou dando pequenos passos devagar sem as canadianas. Não me vou esticar e ainda as vou usando, mas já dá para libertar as mãos e beber um cafézinho sem ter de parecer um flamingo de perna no ar. Ter confiança é bom, a mais é que não. Vou indo com calma. 

Pensamento do dia #19 (A Arte e a Vida)

Sofia
08
Jul25

Estava na fisioterapia, com gelo sobre o joelho, e ia ouvindo algumas conversas. Gosto de observar e ouvir conversas. Podem chamar-me cusca, não me importo. Gosto de observar e ouvir, sem qualquer intenção de comentar ou entrar na história. Não me quero meter na vida dos outros ou sequer opinar sobre elas. Muitas vezes, nem sequer pensar sobre elas - apenas contemplar. Hoje, ali deitada, não pude deixar de pensar que, realmente, a arte tenta imitar a vida, como já na Grécia Antiga se dizia.

As palavras que tentam construir mundos, os diálogos e paisagens nos filmes que tentam reproduzir o que já conhecemos, os quadros e fotografias que tentam captar pedaços do mundo... Tudo isso, mesmo criando algo novo, mesmo tentado criar algo novo, tem por base esta sede de vida, de replicar, replicar, replicar. Não há nada de errado nisso, porque, nesta sede de vida, de sentimentos, de sensações, de emoções, constroem-se coisas belas, tão belas que se tornam vida também. A arte começa a imiscuir-se na vida e, nisto, a própria vida começa a imitar também a arte. Recordei-me de um ensaio da Iris Murdoch que se debruça sobre este tema e que li em tempos. Queria encontrá-lo, mas não o consegui ainda encontrar. Talvez aproveite a deixa para me lançar aos livros dela como já gostaria de ter feito.

Esta ideia de replicar e tentar atingir o inatingível fascina-me também, porque, acreditando eu que a vida é absurdamente bela, vejo isto quase como a melhor forma de imitação possível. Este caminho que, felizmente, continuamos a perpetuar, torna a arte vida. Já não é só uma imitação. Já não é só a arte a misturar-se com a vida. A própria arte transforma-se em vida.

Deitada na fisioterapia, tinha ideias sobre isto e queria escrevê-las. Na minha cabeça, o texto ia-se construindo e eu já só esperava não me perder até chegar a casa. Tentava guardar todas estas ideias naquela gavetinha do meu cérebro, para depois as poder recuperar. Perdem-se, quase sempre, ideias e palavras no caminho, mas ganham-se outras quando começamos a escrever. Apercebo-me de que eu escrevo também para tentar replicar, para tentar recuperar algo, para tentar criar algo novo. Não é novidade, mas faz-me bem criar estas ligações entre as ideias, a escrita e o meu Eu. Pensei que gostava que existisse uma máquina que me permitisse guardar os pensamentos e transcrevesse os textos que escrevo apenas na minha cabeça. Era útil, mas, desse modo, não ia ganhar aquilo que se ganha enquanto tentamos recuperar algo.

Desde que o gelo foi retirado e me levantei, muitas coisas se passaram: fiz 3 minutos de bicicleta, fui escada fora na cadeirinha automática (desta vez em versão quase self-service, o que me deixou sorridente pela "autonomia" - não que não conseguisse subir de canadianas, mas sei que ali não é suposto criar situações de risco; foi bom explicarem-me os botõezinhos e deixarem-me ir em segurança sem ter de esperar por alguém), cheguei a casa e andei, aos poucos, a fazer pequenas coisas (dar água às gatas, abrir mais os estores e as janelas, trazer a garrafa de água de 1,5l da cozinha, pegar no Kobo e trazê-lo para o quarto, pegar no computador e trazê-lo para o quarto - enquanto pensava que se calhar estava a querer demais)... Claro que algo se pode ter perdido pelo caminho, mas a vida também se imiscui, tantas vezes, na arte. Digo arte e sinto-me ousada, mas, não faz mal, porque a ideia é boa.

Penso que escrever sobre a nossa própria vida é também uma forma de imitar, recuperar e criar. Escrever, mesmo banalidades, é criar, é construir uma obra. Somos obras sempre em construção. Escrever diários ou escrever blogs que parecem diários não é mau. Alguns falam de auto-conhecimento. É verdade. Mas é mais do que isso. Tornamo-nos (ainda mais) protagonistas da nossa vida. Os eventos banais tornam-se acontecimentos. Nunca desprezei quem escreve e descreve os seus dias, quem partilha pequenas banalidades. Eu faço-o e muito. Penso que, depois deste meu pequeno devaneio, consigo perceber ainda melhor o porquê.

Despeço-me com as palavras de Sartre, n' A Náusea:

Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.

Houve um tempo em que as flores eram só flores

Sofia
07
Jul25

Houve um tempo em que as flores eram só flores.

Os rios eram só rios.

Tudo era uma paisagem bela, mas distante.

Hoje, as flores e os rios fazem parte de mim

e eu faço parte deles também.

Whitman lembra-me:

"Cada átomo que me constitui é também pertença tua."*

 

Quando o meu tempo se fizer pó,

quero que leiam poesia e se lembrem

que ainda estarei nesses fragmentos de luz,

nas flores e nos rios, em todo o lado.

 

Ana Sofia Alves

7 de Julho de 2025

 

 

* Whitman, Walt. "Canto de Mim Mesmo" (tradução de João Moita)

 

Sinto-me em paz, como se os meus pés beijassem o chão. Curiosamente, foi isso que, hoje, a fisioterapeuta me disse para começar a fazer com a perna operada.

 

Ney Matogrosso - Balada do Louco

Pensamento do dia #18

Sofia
06
Jul25

O calendário do telemóvel diz-me que hoje é o concerto dos Iron Maiden. Não precisava de me dizer. Devia ter removido a nota do calendário assim que soube que já não iria ao concerto...

Hoje não há grandes pensamentos. Vou-me encher de música, essa 8ª maravilha! Mas Iron Maiden não deverá tocar hoje aqui por casa. Também tenho direito a ter mau feitio 

Pensamento do dia #17

Sofia
05
Jul25

A_Persistência_da_Memória.jpg

A Persistência da Memória, Salvador Dalí

(imagem: Wikipedia)

 

A única vez em que me lembro de ter sentido medo de morrer foi a meio da noite, quando, há poucos anos, acordei com um ataque de pânico.

Não me lembro de ter sonhado nem me lembro de andar às voltas na cama. Lembro-me de acordar, sem aviso, com o coração a sair do peito ou da boca, completamente acelerado, e uma sensação de falta de ar que nunca tinha sentido.

Nunca tinha sentido algo assim, o corpo incontrolado e a querer levar-me sabe-se lá para onde. Senti que era um alerta grave, mas levantei-me e fiz por chegar à casa-de-banho. Comecei a sentir imensas tonturas, fraqueza e, pouco depois, imensos suores frios. Pensei que estava a ter um ataque cardíaco, que só podia ser isso, pois nunca tinha sentido algo assim tão forte. Não conseguia pensar direito e chamei pelo meu namorado que, adormecido, não percebeu nada do que se passava e me disse para molhar a cara. Tentei respirar fundo e molhar a cara. Não foi fácil, mas, como o problema não era fatal, embora o parecesse, foi possível voltar a mim.

A sensação de tempo, neste episódio, é estranha. Creio que foi tudo muito rápido e, ao mesmo tempo, bastante lento. Sei que tive medo de morrer e que me queria agarrar à vida.

Não foi nada, mas ficou-me na memória. Não se repetiu, mas a persistência da memória serve para lembrar os momentos e recordar-me de que é bom querermos agarrar a vida, mesmo no meio do absurdo. Temos esta capacidade louca de agarrar a vida, reconstruir e adaptar. Espanta-me sempre essa capacidade do ser humano que, mesmo em adversidades, tem esta capacidade louca de se reconstruir de corpo e alma.

Na época estava a trabalhar imenso e as enxaquecas eram frequentes e fortes. As enxaquecas não desapareceram e, mesmo depois da mudança de trabalho, tive alguns episódios em que tive de mergulhar no silêncio e escuridão do quarto e suportar os vómitos. (Talvez seja a náusea pela monotonia.) Gostava de pensar como a médica que me atendeu um dia: "Enxaquecas vai ter sempre: é ter a medicação à mão." Fosse tudo simples como esta frase.

Prefiro antes as palavras de Miguel Torga* e agarrar-me à persistência das memórias e à minha loucura:

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

 

* poema "Sísifo"