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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Escrever

Sofia
23
Jul20

Costuma-se dizer das fotos "para mais tarde recordar". Esta faz parte da série "para mais tarde apagar", mas tudo bem.
Também é provável que altere coisas que escrevi — apesar da escrita intermitente, há um caminho que tenho vindo a fazer e que se tornou claro mais recentemente. Se antes não mexia no que tinha escrito, agora aceito essa ideia porque permite-me seguir aquilo em que acredito — ser fiel a mim mesma. (22/06/2020)

As palavras anteriores mantém-se, apesar de as ter escrito há um mês. Assim, não estranhem se este post vier a desaparecer. As promessas são para se cumprir, por isso, não posso prometer que este post permaneça aqui para sempre. De qualquer modo, hoje acordei com vontade de partilhar o último poema que escrevi.

Já passou um mês desde a última vez que escrevi um poema... Tal como escrevi antes, a escrita é intermitente, por isso posso passar alguns períodos sem escrever. Para além disso, há uma certa sensação que me assola de que tenho de escolher viver ou escrever, porque, no momento em que escrevo, estou alheada do resto e, no momento em que vivo, estou alheada da escrita. N'A Náusea, Sartre escrevia que era preciso escolher viver ou contar. Não é bem o mesmo, mas há um elo que me une a esta ideia.

Depois de divagar um pouco sobre o que é escrever para mim, deixo-vos um poema sobre a escrita (mais um, é verdade, mas, desta vez, este foi escrito por mim).

 


Escrevemos e esquecemos,
bebemos mais um copo,
engolimos lentamente
os prazeres nocivos desta vida.

Desejamos cada gota de tinta,
cada pequeno pedacinho de papel,
cada fotografia que guardamos na nossa memória
para mais tarde lembrar.

Lembramo-nos depois porque
queríamos esquecer
a realidade vívida e com cheiros
e cores e sensações
que era por vezes demais.

Com os dedos, escrevemos
na terra molhada
e vamos ao fundo
para de novo abraçarmos a Primavera
e fazermos parte do mundo, das cores,
dos cheiros, das sensações.

Escrevemos com os ossos que estalam,
com os olhos que se tentam manter abertos
quando o corpo quer descanso.
Escrevemos na areia para nos tornarmos leves e nómadas
sem sairmos do nosso chão.

Escrevemos porque estamos em combustão.
Ardemos desde o nosso primeiro dia
e não há água que nos sacie.
Levamos o mundo no nosso peito
a arder
desde o primeiro dia.