Não tarda virá o Inverno
Aquele pão já está seco e duro. Quando se toca, esfarela-se.
As cerejas ao lado já começaram a apodrecer e ganhar bolor.
Os olhos estão também presos à podridão dos dias.
Os dias apodrecem como fruta por trincar.
As bocas abriram-se ao sabor dos frutos, mas a fruta caiu
ao lado e apodreceu no chão.
Não tarda virá o Inverno para congelar o tempo.
As mãos ficarão quietas à procura das palavras apodrecidas
no teclado de um computador.
Há repulsa por estes estados, mas não é suficiente.
Os corpos apodrecem como a fruta e o pão velho
enquanto os cérebros minguam em frente a um ecrã.
Também os olhos se vão perdendo no Inverno da alma
e do corpo.
São quatro paredes estáticas e sempre presentes
para uma cabeça sempre ausente.
São ossos que se sentem como cordas ou adagas na pele.
Não tarda virá o Inverno, outra vez.
Ana Sofia Alves
17 de Julho de 2025