Desejo
Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.
Hilda Hilst
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Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.
Hilda Hilst
Estava na fisioterapia, com gelo sobre o joelho, e ia ouvindo algumas conversas. Gosto de observar e ouvir conversas. Podem chamar-me cusca, não me importo. Gosto de observar e ouvir, sem qualquer intenção de comentar ou entrar na história. Não me quero meter na vida dos outros ou sequer opinar sobre elas. Muitas vezes, nem sequer pensar sobre elas - apenas contemplar. Hoje, ali deitada, não pude deixar de pensar que, realmente, a arte tenta imitar a vida, como já na Grécia Antiga se dizia.
As palavras que tentam construir mundos, os diálogos e paisagens nos filmes que tentam reproduzir o que já conhecemos, os quadros e fotografias que tentam captar pedaços do mundo... Tudo isso, mesmo criando algo novo, mesmo tentado criar algo novo, tem por base esta sede de vida, de replicar, replicar, replicar. Não há nada de errado nisso, porque, nesta sede de vida, de sentimentos, de sensações, de emoções, constroem-se coisas belas, tão belas que se tornam vida também. A arte começa a imiscuir-se na vida e, nisto, a própria vida começa a imitar também a arte. Recordei-me de um ensaio da Iris Murdoch que se debruça sobre este tema e que li em tempos. Queria encontrá-lo, mas não o consegui ainda encontrar. Talvez aproveite a deixa para me lançar aos livros dela como já gostaria de ter feito.
Esta ideia de replicar e tentar atingir o inatingível fascina-me também, porque, acreditando eu que a vida é absurdamente bela, vejo isto quase como a melhor forma de imitação possível. Este caminho que, felizmente, continuamos a perpetuar, torna a arte vida. Já não é só uma imitação. Já não é só a arte a misturar-se com a vida. A própria arte transforma-se em vida.
Deitada na fisioterapia, tinha ideias sobre isto e queria escrevê-las. Na minha cabeça, o texto ia-se construindo e eu já só esperava não me perder até chegar a casa. Tentava guardar todas estas ideias naquela gavetinha do meu cérebro, para depois as poder recuperar. Perdem-se, quase sempre, ideias e palavras no caminho, mas ganham-se outras quando começamos a escrever. Apercebo-me de que eu escrevo também para tentar replicar, para tentar recuperar algo, para tentar criar algo novo. Não é novidade, mas faz-me bem criar estas ligações entre as ideias, a escrita e o meu Eu. Pensei que gostava que existisse uma máquina que me permitisse guardar os pensamentos e transcrevesse os textos que escrevo apenas na minha cabeça. Era útil, mas, desse modo, não ia ganhar aquilo que se ganha enquanto tentamos recuperar algo.
Desde que o gelo foi retirado e me levantei, muitas coisas se passaram: fiz 3 minutos de bicicleta, fui escada fora na cadeirinha automática (desta vez em versão quase self-service, o que me deixou sorridente pela "autonomia" - não que não conseguisse subir de canadianas, mas sei que ali não é suposto criar situações de risco; foi bom explicarem-me os botõezinhos e deixarem-me ir em segurança sem ter de esperar por alguém), cheguei a casa e andei, aos poucos, a fazer pequenas coisas (dar água às gatas, abrir mais os estores e as janelas, trazer a garrafa de água de 1,5l da cozinha, pegar no Kobo e trazê-lo para o quarto, pegar no computador e trazê-lo para o quarto - enquanto pensava que se calhar estava a querer demais)... Claro que algo se pode ter perdido pelo caminho, mas a vida também se imiscui, tantas vezes, na arte. Digo arte e sinto-me ousada, mas, não faz mal, porque a ideia é boa.
Penso que escrever sobre a nossa própria vida é também uma forma de imitar, recuperar e criar. Escrever, mesmo banalidades, é criar, é construir uma obra. Somos obras sempre em construção. Escrever diários ou escrever blogs que parecem diários não é mau. Alguns falam de auto-conhecimento. É verdade. Mas é mais do que isso. Tornamo-nos (ainda mais) protagonistas da nossa vida. Os eventos banais tornam-se acontecimentos. Nunca desprezei quem escreve e descreve os seus dias, quem partilha pequenas banalidades. Eu faço-o e muito. Penso que, depois deste meu pequeno devaneio, consigo perceber ainda melhor o porquê.
Despeço-me com as palavras de Sartre, n' A Náusea:
Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.

A Persistência da Memória, Salvador Dalí
(imagem: Wikipedia)
A única vez em que me lembro de ter sentido medo de morrer foi a meio da noite, quando, há poucos anos, acordei com um ataque de pânico.
Não me lembro de ter sonhado nem me lembro de andar às voltas na cama. Lembro-me de acordar, sem aviso, com o coração a sair do peito ou da boca, completamente acelerado, e uma sensação de falta de ar que nunca tinha sentido.
Nunca tinha sentido algo assim, o corpo incontrolado e a querer levar-me sabe-se lá para onde. Senti que era um alerta grave, mas levantei-me e fiz por chegar à casa-de-banho. Comecei a sentir imensas tonturas, fraqueza e, pouco depois, imensos suores frios. Pensei que estava a ter um ataque cardíaco, que só podia ser isso, pois nunca tinha sentido algo assim tão forte. Não conseguia pensar direito e chamei pelo meu namorado que, adormecido, não percebeu nada do que se passava e me disse para molhar a cara. Tentei respirar fundo e molhar a cara. Não foi fácil, mas, como o problema não era fatal, embora o parecesse, foi possível voltar a mim.
A sensação de tempo, neste episódio, é estranha. Creio que foi tudo muito rápido e, ao mesmo tempo, bastante lento. Sei que tive medo de morrer e que me queria agarrar à vida.
Não foi nada, mas ficou-me na memória. Não se repetiu, mas a persistência da memória serve para lembrar os momentos e recordar-me de que é bom querermos agarrar a vida, mesmo no meio do absurdo. Temos esta capacidade louca de agarrar a vida, reconstruir e adaptar. Espanta-me sempre essa capacidade do ser humano que, mesmo em adversidades, tem esta capacidade louca de se reconstruir de corpo e alma.
Na época estava a trabalhar imenso e as enxaquecas eram frequentes e fortes. As enxaquecas não desapareceram e, mesmo depois da mudança de trabalho, tive alguns episódios em que tive de mergulhar no silêncio e escuridão do quarto e suportar os vómitos. (Talvez seja a náusea pela monotonia.) Gostava de pensar como a médica que me atendeu um dia: "Enxaquecas vai ter sempre: é ter a medicação à mão." Fosse tudo simples como esta frase.
Prefiro antes as palavras de Miguel Torga* e agarrar-me à persistência das memórias e à minha loucura:
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...
* poema "Sísifo"
J'avais trouvé ma religion: rien ne me parut plus important qu'un livre. La bibliothèque, j'y voyais un temple.
Jean-Paul Sartre, Les Mots
Neste dia Mundial da Biblioteca, deixo esta pequena citação de Sartre que muito me diz.
Cresci rodeada de livros. Os meus colegas de escola, quando iam a minha casa, diziam que a minha sala parecia uma biblioteca. Não era assim tão grande, mas para a maioria das pessoas eram imensos livros.
Foi nessas estantes que, por volta dos meus 15 anos, descobri aqueles que para mim iriam ser eternos: Pessoa, Kafka e Camus. Vieram outros de lá e de fora, mas foi assim que, para mim, tudo começou.
As estantes eram o meu templo e as palavras que lia faziam sentido quando mais nada fazia, davam-me força e levavam-me ao colo.
Quando não estamos fechados entre quatro paredes ou quatro linhas de um ecrã, muita coisa acontece, coisas boas ou más. A vida acontece.
E assim se passam dias, meses, anos.
And some things that should not have been forgotten were lost. History became legend. Legend became myth. And for two and a half thousand years, the ring passed out of all knowledge.
J. R. R. Tolkien, The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring
Agora vou percebendo melhor aquelas histórias que os mais velhos repetem porque os marcam. Com a velocidade dos anos, percebo ainda melhor o brilho nos olhos ao recordar memórias felizes. Também percebo a aceitação do que de menos bom nos acontecesse e que, todavia, faz de nós aquilo que somos. Percebo os queixumes das nossas maleitas e, no fim, a nossa aceitação com um "graças a Deus, podia ter sido pior". E nem religiosa sou. Mas quem diz "graças a Deus", diz um "valha-nos isso" ou uma outra qualquer expressão de gratidão para com o universo. Vou compreendendo melhor esta sensação de força e de esperança que nos faz seguir em frente, mesmo no meio das adversidades.
Ora, espero num próximo retorno contar sobre a minha viagem mal planeada a Marselha. Já a tinha mencionado no meu último post, mas depois passaram-se mais coisas, porque a vida nunca pára. O meu namorado foi diagnosticado com diabetes. Uma das minhas gatas foi diagnosticada com diabetes. (Não, não andávamos a atacar potes com rebuçados.
Agora já podemos fazer piadas porque as coisas já estão controladas e o humor torna os dias mais leves.) Tivemos uma viagem de sonho a Turim onde pudemos juntar o sonho de conhecer Itália com o de ver o nosso Benfica no estrangeiro. Fica aqui registada a vontade de falar sobre Turim, depois de Marselha.
Fevereiro passou a correr e quando dei por mim, cheguei a Março e espatifei-me - literalmente. Caí na nossa bela calçada portuguesa e rompi o menisco. Vale-me o teletrabalho para não ficar em casa só a olhar para o ar. Não é que me faltem livros para ler e filmes e séries para ver, mas o trabalho, mesmo nos dias menos entusiasmantes, faz-me falta e mantém-me a cabeça ocupada, sobretudo agora que dou comigo farta de tanto repouso por causa do joelho. Passei assim mais um aniversário em casa, desta vez para repousar a perna. Sempre é melhor que estar confinada por causa de um vírus.
Vou ter uma nova consulta esta semana e só espero pelo melhor. Pelo menos, a minha gata Maria já está de volta depois de ter estado internada por causa da diabetes. Felizmente, apesar do internamento, foi por uma boa causa - reduziu a toma de insulina diária. Falaram-nos que pode acontecer os gatos com diabetes entrarem em remissão. Ainda é cedo, mas o mau que nos levou ao veterinário acaba por ter algo de bom.