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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Pinheiros

Sofia
01
Out21

Os pés descalços e escuros da terra
corriam em direcção ao baloiço.
Por baixo dos pés, havia terra, raízes
e caruma dos pinheiros que picava
os pés enquanto corriam ou andavam.
Na terra escura havia a liberdade
de se ser quem se quiser e os sonhos
que as crianças guardam em cofres.
Os tesouros da infância estão guardados!


Parte de mim ficou colada à resina
que escorria pela casca dos pinheiros
e que as minhas mãos de criança tocavam
na procura de novas sensações. Ficamos
colados às cascas da nossa vida.
Os chorões agarravam-se à terra
com mais firmeza que as minhas mãos
que apenas queriam ser livres para construir
castelos com uma terra difícil de moldar.
Queriam ser livres para agarrarem as pinhas
e as canas, para abraçarem as árvores, para
agarrarem um pedaço de pão enquanto o corpo
corria pelo terreno, livres para agarrarem
as cordas grossas do baloiço
enquanto o corpo se imaginava a voar.
Livres e sujeitas, por isso, a qualquer infortúnio,
como as urtigas. Livres e nuas,
prontas para agarrarem com força as cordas
e prontas para ampararem qualquer queda.


No alto, à noite, as corujas tornavam-se as guardiãs
dos sonhos e dos pesadelos.
Na noite funda, ouvia-se um piar sem fim.
Os pinheiros guardavam as guardiãs.

O corpo descansa enquanto a mente anseia.
A mente anseia crescer como um pinheiro.


Ana Sofia Alves
1 de Outubro de 2021

Não poderás viver se não te permitires / cair do céu estrelado como um meteoro

Sofia
12
Set21

Não poderás viver se não te permitires
cair do céu estrelado como um meteoro
em direcção à Terra. Os anos avançam
velozes e na crosta querem-se crateras.

A vida quer anéis de gelo, rochas e pó.
Quer explosões, luz, escuridão e
núcleos incandescentes. Quer ressoar,
quer ressonâncias, um vibrar constante
no tempo incontável e no espaço infinito.

Ana Sofia Alves
12 de Setembro de 2021

Enquanto a noite não vem

Sofia
12
Set21

Enquanto a noite não vem,
vamos escrever prosas em círculos
e registar no vento todos os desejos que
queremos levar connosco pela noite fora.

Enquanto não anoitece,
sejamos pássaros de asas abertas
que se perdem no azul do céu,
sejamos livres longe do caos,
longe das ruínas, dos pedaços de destruição.

Quando anoitecer,
sejamos parte da natureza,
um só caule que cresce em direcção ao céu,
uma raiz que se alonga por toda a terra,
uma flor que dá cor aos dias mais sombrios.

Nas ruínas da civilização, sejamos o recomeço
como as sementes na terra.
Quando já não houver mais do que a luz das estrelas,
façamos parte das constelações e, se tivermos de nos apagar,
que a nossa queda seja a queda de uma estrela cadente.

Ana Sofia Alves
7 de Setembro de 2021

Chamávamo-nos silêncio

Sofia
19
Jul21

Chamávamo-nos silêncio
Ouvíamo-nos em toda a parte
E acordávamos em nós depois
Das longas noites despidas
De madrugada, o suor escorria-nos pelos peitos nus
E os olhos abriam-se lentamente
para depois se afundarem na escuridão do quarto.
Chamávamo-nos paixão
Tudo era burburinho, ruído de fundo
Éramos o silêncio no meio do mundo
Cai o pano e as pálpebras abrem-se já cansadas
Éramos sonhos a preto e branco
Fotografias por revelar
Chamávamo-nos luz
Chamávamo-nos escuridão

 

19 de Julho de 2021
Ana Sofia Alves

Todas as palavras em todas as línguas do mundo não seriam suficientes

Sofia
12
Mai21

Todas as palavras em todas as línguas do mundo não seriam suficientes

para desenhar no papel um pedaço de realidade ou lançar foguetões ao ar.

Todas juntas, as palavras não chegariam para construir uma escada,

uma história que nos fizesse abraçar o Sol sem nos queimarmos

ao mesmo tempo que nos afogamos à superfície embriagados de tantos sonhos.

 

Não há sacos, malas ou cofres suficientemente grandes para guardar o mundo.

Não há folhas capazes de aprisionar o que é tão leve e vasto. Não há espaço para

tanto espaço. Não há espaço no meio do espaço. Não há astros que estendam

os seus raios sobre uma folha de papel. Os raios estendem-se nas folhas das árvores,

nas pétalas das flores, nas águas dos oceanos, nas pedras virgens das montanhas.

 

Na folha está um átomo ou menos do que um átomo. Na folha está uma aspiração.

 

Ana Sofia Alves

12 de Maio de 2021