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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Não poderás viver se não te permitires / cair do céu estrelado como um meteoro

Sofia
12
Set21

Não poderás viver se não te permitires
cair do céu estrelado como um meteoro
em direcção à Terra. Os anos avançam
velozes e na crosta querem-se crateras.

A vida quer anéis de gelo, rochas e pó.
Quer explosões, luz, escuridão e
núcleos incandescentes. Quer ressoar,
quer ressonâncias, um vibrar constante
no tempo incontável e no espaço infinito.

Ana Sofia Alves
12 de Setembro de 2021

Sonhei com as fitas azuis dos poetas

Sofia
27
Jul21

Sonhei com as fitas azuis dos poetas

e os mastros de madeira dos navios

que se perdiam no mar como gente

se perde no mundo para se conseguir

achar. Sonhei com quadros de nuvens

e achei que eram rios de amor

que caminham em direcção ao mar.

 

Os sonhos são delicados como as

nuvens no céu ou as pinceladas

que os pintores deixam nas telas.

Leves são as cores e o movimento.

Há quadros que se constroem com

pequenos nadas e salpicos no papel,

sonhos que ganham forma nas cerdas

de um pincel ou no arco de um violino.

 

27 de Julho de 2021

Ana Sofia Alves

Todas as palavras em todas as línguas do mundo não seriam suficientes

Sofia
12
Mai21

Todas as palavras em todas as línguas do mundo não seriam suficientes

para desenhar no papel um pedaço de realidade ou lançar foguetões ao ar.

Todas juntas, as palavras não chegariam para construir uma escada,

uma história que nos fizesse abraçar o Sol sem nos queimarmos

ao mesmo tempo que nos afogamos à superfície embriagados de tantos sonhos.

 

Não há sacos, malas ou cofres suficientemente grandes para guardar o mundo.

Não há folhas capazes de aprisionar o que é tão leve e vasto. Não há espaço para

tanto espaço. Não há espaço no meio do espaço. Não há astros que estendam

os seus raios sobre uma folha de papel. Os raios estendem-se nas folhas das árvores,

nas pétalas das flores, nas águas dos oceanos, nas pedras virgens das montanhas.

 

Na folha está um átomo ou menos do que um átomo. Na folha está uma aspiração.

 

Ana Sofia Alves

12 de Maio de 2021

o primeiro

Sofia
12
Mai21

Cat Stevens - Wild World

 

Hoje apetece-me partilhar o Gato Esteves, como diz o meu pai às vezes em conversa.

Lembrei-me de um texto que tinha escrito há já alguns anos e depois de outros textos que escrevi depois mas que já nem me lembrava de os ter juntado ao primeiro. Na minha cabeça há toda uma história... A história da Rita, do Samuel, do irmão do Samuel, o Tomás, que ainda nem existe no papel... Não é uma grande história, se calhar não é nada, mas são ideias que guardo na esperança de ter tempo, paciência, vontade de escrever, o que quer que seja que acho que não tenho ainda.

Algures, em 2016, escrevi um pequeno texto e colei-o a outros que já tinha escrito no ano anterior porque na minha cabeça fazia sentido. Não é nada de importante, não fosse o documento chamar-se "o primeiro". Foi a primeira vez que criei e dei nome a uma personagem. Depois dei nome à segunda. Acho que ainda estou assustada. Ao mesmo tempo, olho para os textos e penso "Isto é tudo uma grande c*gada!" Ainda assim, para mim, há música naquelas pouquíssimas páginas com textos experimentais, nem que seja apenas quando o Gato Esteves vem à baila ou quando sabemos que temos a lindíssima voz da Ella ao fundo a cantar "Night and day, you are the one."

Despeço-me com as minhas palavras de 2016, enquanto não encontro as de 2021:

Coloco os fones nos ouvidos para me perder melhor na realidade. Baby, baby it’s a wild world… Se eu me perder, peço que me encontrem só depois das doze badaladas.

No princípio, os pés eram botões de rosa dourados

Sofia
02
Jan21

No princípio, os pés eram botões de rosa dourados

caminhando pela alba dos dias. Em linhas rectas ou

em círculos conjugavam verbos e lançavam o nome

do amor ao alto para que explodisse e se fixasse

ao céu. Assim, o céu seria sempre um céu de amor.

 

Os pés dançavam nas falésias e as pedras rolavam

até ao mar, principiando a queda dos corpos nus.

Depois, não havia pés para manter o corpo, não havia

rosas douradas e o céu reflectia nas cores do amor

o mar revolto e cinzento. As mãos uniram-se.

 

As mãos viraram o corpo do avesso e tornaram sua

a tarde, a noite e a nova alvorada. Construíram com

argila novas falésias e colaram com pingos de chuva

o que sobrou do naufrágio. Depois, os pés dançavam,

as mãos construíam e os corpos uniam-se à praia.

 

Ana Sofia Alves

2 de Janeiro de 2021