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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

Mudanças

Sofia
14
Jan26

2026 traz mudanças e foi com alguma tristeza que li a notícia do fecho do Sapo Blogs. Há uns bons anos atrás passei imenso tempo por aqui. Depois, afastei-me e, em 2020, lá decidi regressar. Este blog foi um sobrevivente que resistiu a todos os meus impulsos de o apagar. Trouxe-me bons momentos de introspecção e de partilha com outros. Conheci aqui neste canto da internet pessoas fantásticas! Considerava-o um canto especial onde as pessoas paravam a correria e olhavam para si e para os outros - coisa tão rara nos dias que correm. Desta vez, não quero apagar o blog como tanto fiz no passado. Talvez guarde alguns textos que só aqui escrevi, nos quais partilhava os meus dias e pensamentos.

 

De futuro, talvez seja esta a minha nova morada de escrita, onde, aproveitando a mudança, espero censurar-me menos na partilha do que escrevo:

https://sofia-aworldinagrainofsand.tumblr.com/

 

Até já :)

Si, Lá ou Dó

Sofia
21
Jul25

Gemini_AI_1.png

Imagem gerada por IA

 

Chamava-se Si, Lá ou Dó, tanto faz. Na realidade, o nome não interessava porque não falava consigo mesma.

Às vezes, enquanto comia uma colher de gelado, imaginava o seu nome dito como se fosse o nome de uma grande epopeia.

Chamava-se Si, Lá e Dó e, em vez de pés velozes como os de Aquiles, tinha mãos frenéticas numa máquina de escrever antiga. Sujava-se frequentemente de tinta, as folhas ficavam entaladas no carro, tortas, e ela acabava por ter de as puxar, rasgando-as um pouco. Com os dedos manchados pela tinta e um conjunto de folhas rasgadas ao seu lado, Si repetia a sua história, na esperança de que algum dia fizesse sentido.

Cada vez que metia uma folha nova no carro da máquina, imaginava-se um herói a cumprir o seu destino. Carregava nas teclas como quem atira flechas ou espeta lanças nas costas de um outro destino.

Chamava-se Lá, Si e Dó e bebia café como se isso fosse o néctar dos deuses. Olhava depois para as borras no fundo da chávena e pensava em como gostaria de saber adivinhar o que aquilo queria dizer – se é que as borras dizem alguma coisa.

Chamava-se Dó, Si e Lá e era dócil como uma manhã de Primavera. Os dedos sujos de tinta eram como terra fértil e antecipavam os frutos da próxima estação. O seu sorriso queria ser um sol tímido que desperta calmamente e espraia os seus braços de luz por todo o lado.

Não tenham dó de mim quando eu morrer, pensava.

Às vezes escrevia deitada, com o seu ventre para baixo, os cotovelos apoiados na cama e as pernas a balançarem. Não é prático e vou ficar com dores de costas, pensava, enquanto continuava assim, porque lhe sabia bem.

 

Ana Sofia Alves

21 de Julho de 2025

Pensamento do dia #19 (A Arte e a Vida)

Sofia
08
Jul25

Estava na fisioterapia, com gelo sobre o joelho, e ia ouvindo algumas conversas. Gosto de observar e ouvir conversas. Podem chamar-me cusca, não me importo. Gosto de observar e ouvir, sem qualquer intenção de comentar ou entrar na história. Não me quero meter na vida dos outros ou sequer opinar sobre elas. Muitas vezes, nem sequer pensar sobre elas - apenas contemplar. Hoje, ali deitada, não pude deixar de pensar que, realmente, a arte tenta imitar a vida, como já na Grécia Antiga se dizia.

As palavras que tentam construir mundos, os diálogos e paisagens nos filmes que tentam reproduzir o que já conhecemos, os quadros e fotografias que tentam captar pedaços do mundo... Tudo isso, mesmo criando algo novo, mesmo tentado criar algo novo, tem por base esta sede de vida, de replicar, replicar, replicar. Não há nada de errado nisso, porque, nesta sede de vida, de sentimentos, de sensações, de emoções, constroem-se coisas belas, tão belas que se tornam vida também. A arte começa a imiscuir-se na vida e, nisto, a própria vida começa a imitar também a arte. Recordei-me de um ensaio da Iris Murdoch que se debruça sobre este tema e que li em tempos. Queria encontrá-lo, mas não o consegui ainda encontrar. Talvez aproveite a deixa para me lançar aos livros dela como já gostaria de ter feito.

Esta ideia de replicar e tentar atingir o inatingível fascina-me também, porque, acreditando eu que a vida é absurdamente bela, vejo isto quase como a melhor forma de imitação possível. Este caminho que, felizmente, continuamos a perpetuar, torna a arte vida. Já não é só uma imitação. Já não é só a arte a misturar-se com a vida. A própria arte transforma-se em vida.

Deitada na fisioterapia, tinha ideias sobre isto e queria escrevê-las. Na minha cabeça, o texto ia-se construindo e eu já só esperava não me perder até chegar a casa. Tentava guardar todas estas ideias naquela gavetinha do meu cérebro, para depois as poder recuperar. Perdem-se, quase sempre, ideias e palavras no caminho, mas ganham-se outras quando começamos a escrever. Apercebo-me de que eu escrevo também para tentar replicar, para tentar recuperar algo, para tentar criar algo novo. Não é novidade, mas faz-me bem criar estas ligações entre as ideias, a escrita e o meu Eu. Pensei que gostava que existisse uma máquina que me permitisse guardar os pensamentos e transcrevesse os textos que escrevo apenas na minha cabeça. Era útil, mas, desse modo, não ia ganhar aquilo que se ganha enquanto tentamos recuperar algo.

Desde que o gelo foi retirado e me levantei, muitas coisas se passaram: fiz 3 minutos de bicicleta, fui escada fora na cadeirinha automática (desta vez em versão quase self-service, o que me deixou sorridente pela "autonomia" - não que não conseguisse subir de canadianas, mas sei que ali não é suposto criar situações de risco; foi bom explicarem-me os botõezinhos e deixarem-me ir em segurança sem ter de esperar por alguém), cheguei a casa e andei, aos poucos, a fazer pequenas coisas (dar água às gatas, abrir mais os estores e as janelas, trazer a garrafa de água de 1,5l da cozinha, pegar no Kobo e trazê-lo para o quarto, pegar no computador e trazê-lo para o quarto - enquanto pensava que se calhar estava a querer demais)... Claro que algo se pode ter perdido pelo caminho, mas a vida também se imiscui, tantas vezes, na arte. Digo arte e sinto-me ousada, mas, não faz mal, porque a ideia é boa.

Penso que escrever sobre a nossa própria vida é também uma forma de imitar, recuperar e criar. Escrever, mesmo banalidades, é criar, é construir uma obra. Somos obras sempre em construção. Escrever diários ou escrever blogs que parecem diários não é mau. Alguns falam de auto-conhecimento. É verdade. Mas é mais do que isso. Tornamo-nos (ainda mais) protagonistas da nossa vida. Os eventos banais tornam-se acontecimentos. Nunca desprezei quem escreve e descreve os seus dias, quem partilha pequenas banalidades. Eu faço-o e muito. Penso que, depois deste meu pequeno devaneio, consigo perceber ainda melhor o porquê.

Despeço-me com as palavras de Sartre, n' A Náusea:

Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.

Pensamento do dia #14 (devaneios e memórias soltas)

Sofia
02
Jul25

A memória é uma coisa tramada...

Não me quero gabar, até porque não vejo isso como um grande feito e momentos há em que mais parece uma maldição, mas tenho uma grande memória.

Na escola era a memória fotográfica que me fazia recordar as páginas do caderno e dos livros e saber quase automaticamente a matéria de que precisava para responder à questão do teste.

No dia-a-dia, recordo-me imenso dos meus sonhos e pesadelos e não sei se é normal lembrar-me de coisas que sonhei com 10 anos ou ter momentos em que a minha cabeça me faz recordar um sonho qualquer que uma vez tive e julguei ficar esquecido. Acreditem, parece mesmo uma maldição porque tenho sonhos muito estranhos. Houve uma altura em que sonhava insistentemente com tsunamis. Era assustador! O último dos sonhos com tsunamis (se a memória não me falha - apesar de muito boa, também acontece) foi menos assustador porque eu já sabia tudo o que tinha de fazer e estava a liderar um grupo de pessoas. Nesse sonhos, escapámos todos ao ir para o ponto mais alto da cidade, onde estava uma igreja. Espero não ter de aplicar na prática estes simulacros da noite.

O mais estranho tsunami com que sonhei foi um tsunami com televisores no meio das ondas - tentei encontrar uma explicação e convenci-me de que era por ter começado a trabalhar na linha de apoio ao cliente de uma empresa de venda de electrodomésticos. A minha mente já estava tão farta de televisores de X, Y, Z polegadas... Na realidade, esse trabalho não começou nada bem. Primeiro porque acabei a fazer uma coisa para a qual não me tinha candidatado - fui excluída de um processo sem poder mostrar o que valia. Depois, foi a pior linha de apoio ao cliente em que trabalhei - as chamadas não paravam e os clientes, por causa dos electrodomésticos, transformavam-se em autênticos mafarricos. Num mês senti-me sugada e parecia um martírio levantar-me para ir trabalhar. Um dia auditaram-me uma chamada e escreveram que a assistente não tinha um sorriso na voz, parecia triste em chamada. Era tão verdade... Decidi abandonar a formação no dia em que ia assinar contrato e não querer saber do dinheiro que ia perder. Voltei a dar ar de maluca aos olhos dos outros, como já me aconteceu noutras situações. Como precisavam de alguém para ajudar na área de backoffice da equipa de vendas de telecomunicações e como eu tinha experiência em telecomunicações e backoffice, não precisei de desistir. Foi uma lufada de ar fresco e, mesmo não sendo uma mudança imediata, consegui aguentar aquela linha de apoio até sair de lá de vez. Quando dei por mim, fiquei praticamente sem colegas na equipa de vendas e proactivamente comecei a contactar os clientes que pediam contactos. Não nasci para ser vendedora, mas gostei imenso de o ter feito porque não estava a impingir serviços a ninguém - os clientes é que queriam ser esclarecidos e até fazer uma adesão. Acho que tive alguma sorte, pois pude fazer aquilo que acho que deve ser feito numa venda - esclarecer e ajudar, sem subterfúgios. O destino e a minha força (que eu pensava que tinha sido sugada), encarregaram-se de me fazer ver que sou capaz de mais. Quando fui excluída de um processo sem poder mostrar o que valia, a desistência de algumas pessoas e a minha falta de experiência em vendas foi o que levou à tomada da decisão. Se só precisavam de 3, não valia a pena começarem com 4. Faz sentido, mas foi um soco no estômago. Levei talvez um pouco demasiado a sério a situação, pois disse a mim mesma que iria ganhar experiência em vendas se a oportunidade surgisse - apenas para provar a mim mesma que também sou capaz, sem precisar de provar nada a ninguém.

Recordo-me de tantas coisas, mas continuo a não me recordar de certas coisas da minha adolescência. Acho que fiz por esquecer alguns anos e o sabor dos livros nas minhas mãos são as maiores recordações que tenho, porque eram o meu refúgio, o meu templo, como disse no post anterior. Não me esqueço também do grupo de teatro da escola e da professora Maria Clara que me marcou profundamente. E da professora Maria José das aulas de Francês. Na realidade lembro-me de muitas pessoas e nomes. Também não sei se é muito normal. Já cheguei a fingir não me lembrar de tantas coisas, de tantos detalhes, porque parece-me uma ligeira aberração e não quero assustar os outros. Por exemplo, há uns meses atendi um cliente no meu trabalho e reconheci a cara e o nome - era filho da pessoa que nos tinha vendido a casa. Só tinha visto o rapaz no dia da escritura e provavelmente só ouvi o nome dele uma vez, mas reconheci-o.

Na minha estante tenho uma edição do Cândido ou O Optimismo de Voltaire. Na primeira página está escrita uma dedicatória dos professores de Francês por ter ganho um concurso de tradução, mas eu não me lembro de ter participado em nada. Recordo-me de que, numa aula, a professora anunciou o resultado e deu-me este livro como primeiro prémio. Um outro colega recebeu outro livro por ter ficado em 2º lugar. Ainda assim, eu não me lembro do raio da tradução que fiz! Quero acreditar que participámos no concurso através de algum exercício feito em aula. Talvez, num momento de desatenção, me tenha escapado o pormenor de estar a participar num concurso de tradução... Fica difícil de imaginar porque eu estava sempre muito atenta. A minha capacidade de atenção era tão boa que ficava muitas vezes ao lado do aluno mais problemático. Mesmo com um colega de carteira falador e que gostava de me mostrar as ganzas que tinha no bolso para fumar, a minha atenção à aula não se perdia, nem sei bem como. As memórias, algumas perderam-se, mas ficam detalhes de coisas simples, como o colega falador, os livros que eu pousava na mesa para ler antes da aula começar, as noites de insónias porque não conseguia desligar do sentimento de incompreensão...

Não me recordo do concurso de tradução, mas recordo-me do concurso de escrita em que participei e ainda tenho o diploma guardado. Lembro-me do texto que escrevi e tenho pena de o ter rasgado e apagado num dos meus muitos momentos de dúvida. O texto começava assim: Comia uma maçã enquanto pensava na fragilidade da vida e em como gostaria de ser a Branca de Neve. Lembro-me vagamente do que tinha escrito. Veludo, era veludo! Já próximo do fim, aparecia alguém a bater à porta - era a vizinha que vinha pedir um niquinho de sal para fazer o jantar. Não me recordo se os dois amantes a ouviam ou não. Gostei do que tinha escrito, mas cometi o erro de apagar tudo numa das vezes em que disse a mim mesma que não voltaria a escrever. Que melodramática! O texto valeu-me o 1º lugar e uma amiga minha da época ficou em 2º ou 3º lugar. Fui receber o prémio, mas sempre fui tímida e sem jeito para lidar com pessoas. Naquele tempo ainda era pior. Aquela exposição era ensurdecedora e eu não ouvia nada, a não ser o meu nome a ser chamado. Deram-me os parabéns e um diploma. Olhei para o diploma e fiquei com cara de enterro, umas valentes trombas possivelmente registadas numa fotografia dos vencedores. Nisto, a minha amiga diz-me algo como "Parabéns! 1º lugar, muito bem!" Olhei de novo para o diploma e aquilo que me tinha parecido um 3 era, afinal, um 1. Senti-me estúpida pela cara de enterro, mas ainda fui a tempo de saborear um pouco aquele momento e sorrir. É impossível não me rir desta situação. Já se passaram tantos anos que isto passou a ter imensa piada.

Há páginas que não devo conseguir recuperar. Quero agora gravar ao máximo as minhas novas memórias, inscrevê-las na pele e, acima de tudo, lembrar-me de que a escrita faz parte do que sou e que não a posso negar.

Lisboa - Londres

Sofia
30
Jun25

Sempre que as violentas ondas me sacudiam e destruíam os meus palácios de princesa, eu via-me a ancorar nas tuas mãos. Quando as ondas esverdeadas, cristalinas e espumosas rebentavam na areia, toda a minha vida, o meu sangue, os meus pensamentos, memórias e desejos eram sugados pelo oceano. Depois, sem me aperceber, estavas lá, com as tuas mãos, as tuas redes, que me resgatavam da turbulência. E depois… Depois, eu era uma praia nua, de areia clara e fria, à espera do meu Verão.

 

Passaram-se anos e hoje já não espero pelo Verão. As estações sucedem-se no seu ciclo habitual, embora cada vez mais disformes e difusas. Quando acordo a meio da noite e relembro aquele Inverno, penso em ti e, aos poucos, o sangue volta a percorrer a minha face, dando-lhe novamente cor.

 

Apanhei o autocarro apressado porque me atrasei a sair de casa. Hoje custou-me a acordar. Senti o peso do mundo em cima dos ombros e, quando me quis levantar, esse peso empurrou-me para o fundo dos lençóis, tentando esmagar-me na doçura da manhã. Ontem à noite, antes de adormecer, pensei em ti. Eras tão engraçada com o teu mau feitio… Refilavas muito se eu te chamasse à atenção, embora, muda, reconhecesses os teus erros. Recusaste despedir-te de mim, porque as despedidas são para sempre, dizias, mas, muda, olhaste-me nos olhos com um beijo de despedida e a minha partida foi muito mais suave. Parti de madrugada, levando na bagagem um rol de lágrimas não derramadas e uma caixa de bombons. Saboreei cada bombom, cada sensação doce e amarga que me foi oferecida, e deixei-me ir pelo meio das nuvens.

 

Naquela tarde, fizemos amor e soubemos que já não havia forma de voltar atrás. No meio de risos e de uma alegria contagiante, embebidos pelo ritmo do jazz que escutávamos, deixámo-nos ir mais além. O calor da tua pele a tocar na minha, os teus lábios de uma cor viva a desejarem os meus, os teus cabelos soltos, nós os dois, sem compromissos… Night and day, you are the one. Deixámo-nos arder, até nos tornarmos cinza e renascermos. Fomos ao inferno e voltámos, conscientes da nossa ousadia. No fim, restariam apenas consequências.

Adormecemos abraçados, como dois amantes apaixonados a quem o sol sorriu um dia. Os astros foram as nossas testemunhas e só eles sabem as juras que fizemos sem falar. Só eles sabem que, afinal, ambos queríamos a eternidade.

 

Quanto mais percorro estas ruas, mais certezas tenho de que o céu não é igual para todos. A realidade é um momento. Pé ante pé, avançamos e o contexto muda. A realidade é feita de linhas ténues, de movimentos transparentes e tem uma existência breve e mutável.

Agarro o puxador da porta e todas aquelas questões que tentei mandar para trás das costas aparecem novamente. Todas as perguntas se resumem a uma: É mesmo isto que queres fazer da tua vida, Rita?

Agora já não há outro caminho. Os dedos, sem força, agarram o puxador e, trémula e lentamente, a porta vai-se abrindo. Não me demorei. Saí transparente, difundindo-me na realidade irreal. Este momento de transição fez-me crer estar a dar os passos de outra pessoa e não os meus. Depois vêm os porquês. Até à minha partida vou ser interrogada várias vezes. Decidi dar sempre a mesma resposta: Porque não?

Coloco os fones nos ouvidos para me perder melhor na realidade. Baby, baby it’s a wild world… Se eu me perder, peço que me encontrem só depois das doze badaladas.

 

Quando não esperava voltar a ser surpreendido, apareceste à minha porta. De Lisboa para Londres, voaste na minha direcção. No Sábado, tocaram-me à porta e, por ser tão pouco usual, não sabia o que me esperava. Dirigi-me para a porta a pensar na manhã cinzenta e nas saudades que sentia do sol de Lisboa, abri-a e, de repente, a luz de Lisboa desarmou-me.

Por momentos, julguei estar a sonhar e a fugir da realidade, até que a tua voz, ao longe, me disse: “Desculpa ter aparecido sem avisar.”

Pisquei os olhos e acordei para a realidade. Estavas à minha porta, em Londres, e a tua voz nunca me soou tão bem! Tive vontade de te abraçar e beijar como da última vez. Em vez disso, dei-te um longo abraço e uma lágrima rebelde rolou pela minha face.

Em palavras surdas disse: “Rita, estás aqui.” Deixámo-nos ficar em silêncio, imóveis, no tempo só nosso.

 

Os dias passavam e eu deixava-me ser pisada por eles. Marchavam os dias sobre mim, corriam os dias sobre mim, dormiam os dias sobre mim. Eu ficava imóvel. Por baixo dos dias, jazia uma pele, um corpo, um coração e uma alma. Por baixo dos dias, o meu coração acordou. Foi assim que tomei a decisão de partir.

No reencontro, abraçámo-nos para, como estátuas, sentirmos a infinitude dos dias. Expliquei-te porque parti, receosa do que me pudesses dizer. Deixei as lágrimas rolarem. A minha cara inundada, a minha garganta desértica. As palavras ganhavam corpo naquela água salgada que deslizava pela minha face e que as tuas mãos tentavam dissipar. As tuas mãos afagavam-me o rosto e puxavam-me para junto de ti. Encostada a ti, chorei. O meu corpo apertado ao teu, as tuas mãos na minha nuca, o teu cheiro tão próximo de mim. A infinitude como um calor que se propaga a partir do nosso centro. O universo a abraçar-me.

 

 

Não tive coragem de te chamar à razão, não depois de te ver destroçada nos meus braços. Ainda para mais, invejei a tua coragem. Não estarias tu mais certa do que eu? Por mais que pensasse em voltar, uma parte de mim sentia vergonha porque teria de admitir que nunca deveria ter partido. E assim se passam dias, semanas, meses e anos. 2 anos. Assim nos deixamos afundar. Perdemos a voz, tapamos os olhos, acordamos para dormir mais um pouco. Descobrimos, nalguns dias, que vivemos nos nossos sonhos. No nosso sono vívido, por vezes, deixamo-nos perder nos sonhos que nos visitaram na noite anterior. Percebemos que não os deixámos escapar. Estúpidos, decidimos dar meia volta e abandoná-los. E os clichés fazem-nos sentir ainda mais parvos. E as frases feitas fazem-nos sentir idiotas. Eu bem te avisei. E as frases feitas que dissemos a nós mesmos assentam-nos que nem uma luva, aquelas frases que pensámos e que só nós conhecíamos porque falavam dos nossos mais íntimos desejos. Apercebemo-nos de que nos conhecemos melhor do que pensamos mas que nos faltam tomates. É melhor acreditar que os outros sabem melhor o que é melhor para nós. O oposto implica dizer ao mundo que estamos aqui para o que der e vier. O furacão aproxima-se e nós, hirtos no meio da cidade, anunciamos o nosso Eu. Foi assim que abandonei a racionalidade e me deixei controlar pela agonia. Depois da agonia, a tristeza. No nosso abraço, as lágrimas entrelaçavam-nos.

 

Samuel piscava os olhos e fazia pequenos movimentos com a cabeça. Para a frente. Para trás. Os olhos vítreos liam um conjunto de linhas, parágrafos e textos que não eram visíveis aos nossos olhos. Os seus olhos processavam múltiplas informações, como um ficheiro que corre velozmente num computador até chegarmos aos resultados finais. Os olhos abriam-se e fechavam-se como pequenas janelinhas num ecrã. Quadradinhos com luz. Escuro. Quadradinhos. Luz. Escuro. Letras e números passavam velozes naquele olhar de vidro.

Samuel estava pálido.

Que será de nós?”, pensou Rita. Agarrou-lhe na mão e pediu que aquele toque tivesse forças para o puxar de novo para a realidade.

Foram muitos dias corridos, muitas horas e semanas de trabalho árduo. A Rita já o tinha avisado. Somos máquinas mas temos os nossos limites.

Os olhos fecharam-se, a cabeça pesou como uma âncora. Samuel deixou-se cair na cadeira. As pernas fraquejavam e já não suportavam mais o peso daquela cabeça.

Rita segurou-lhe na mão. Ficaram assim. Naqueles segundos residiam horas de aço, nervos de aço.

Samuel abriu os olhos. Lentamente, os seus dedos fecharam-se por entre os dedos de Rita. Eram palavras ocultas.

Vamos voltar”, disse por fim. “Chega deste céu sem cor, chega deste cinzento.”

Abraçaram-se. A decisão estava tomada.

Rita levantou-se. “Vou arranjar um chá para nós.”

Enquanto Rita se dirigia para a cozinha, Samuel deixou-se ficar na cadeira, vazio. Ainda há pouco se sentia preso a um destino que não lhe pertencia e agora estava a poder apreciar novamente a sua liberdade, sem mais informações para processar.

Enquanto Rita colocava a chaleira com água ao lume, Samuel pensava na sua infância. Tinha sido na sua infância que tinha experienciado pela primeira vez a liberdade. Não o sabia na altura e, por essa razão, talvez fosse uma liberdade mais pura. Na casa dos seus avós, Samuel gostava de pegar em livros, correr atrás do gordo Napoleão, tentar pegar naquele volumoso gato laranja, metê-lo no cadeirão do seu avô e ler-lhe aquilo que encontrava.

A chaleira começou a apitar. Este ruído transportou-o novamente para a casa dos seus avós, no campo, onde, nos dias frios de Inverno, a sua avó aquecia a água para o chá para que pudessem aquecer as mãos e o corpo a partir de uma caneca. A chaleira apitava e, com 10 anos, Samuel imaginava que o comboio ia partir para iniciar uma nova viagem. Bebia o chá o mais rápido que podia. Por vezes queimava-se na sua pressa jovem. Saía a correr da sala, agarrava numa boina do seu avô e fingia estar a controlar um comboio. Corria pela casa, fazendo paragens no seu percurso para deixar entrar e sair os passageiros. Terminava o percurso sempre no mesmo sítio, nas escadas que o levavam até aos quartos. Cada quarto era um mundo fechado que ainda não estava ao seu alcance. Por vezes, depois de cada viagem, detinha-se em frente a uma das portas e pensava no que sonhava cada pessoa que ali dormia. Eram outros mundos. Acreditava que cada pessoa imaginava e sonhava um mundo diferente, o seu próprio mundo. Era isso que ele fazia no seu quarto: sonhava e imaginava o mundo. No entanto, com os anos, viu-se esquecer dos sonhos. O seu quarto que outrora tinha sido um espaço de contemplação tinha-se tornado um depósito de problemas e frustrações. Tinha deixado a porta demasiado aberta para a realidade.

Toma.” Rita estendeu-lhe uma chávena e sentou-se junto dele. Anoitecia e as sombras das árvores começavam a entrar pela janela. O chão cobria-se com um tapete de ramos e folhas que oscilavam muito devagar. Hoje era ela que o ancorava.

A noite iria terminar cedo. Precisavam de repouso. Os guerreiros preparam-se para as batalhas. Nas suas cabeças, concentram forças que lhes permitam vencer. Preparam-se para a guerra de corpo e espírito. Prometem a si mesmos não dobrar os seus pensamentos, não flectir as suas esperanças, para que as suas pernas se mantenham firmes e os seus joelhos não se dobrem no chão.

 

Os braços de Rita eram searas ao vento a balançar na felicidade da despreocupação. A partida chegara finalmente. Rita e Samuel tinham feito há muito as malas. Samuel não queria levar consigo quaisquer recordações do tempo passado em Londres. Rita, por sua vez, pretendia coleccionar todos os momentos desde o primeiro dia, pois, para si, esta era a aventura que tinha vindo procurar. A partida para Londres tinha sido um crescendo no seu concerto a solo. Depois de imenso tempo, Rita conseguiu assumir-se como solista da sua vida. Cada passo que deu fê-la crescer e alcançar os passos dos Deuses. Um músico sabe que a música pertence aos Deuses, tal como o amor, a poesia e a pintura. Agora, no lugar alcançado, Rita era solista, mas aprendera a partilhar o palco. Tudo se tornou mais fácil quando percebeu que os solistas são estrelas e as estrelas, ainda que dispersas, são muitas e brilham em conjunto. Quando o brilho de Samuel começou a desaparecer e todos os seus dias se tornaram baços, Rita percebeu que era a sua vez de retribuir aquele momento em que, naquela praia, Samuel a ancorou à terra, não a deixando ser apenas uma gota no oceano.

Partiram para regressar. O gosto do regresso era reconfortante como uma lareira acesa no Inverno frio.

Agora, a eternidade pertencia-lhes porque eram donos dos sonhos. Dormiam com os olhos abertos voltados para o céu e depositavam fantasias nas nuvens.

 

 

 

Tomás agarrou na fotografia com as mãos e pousou-a no colo. Os olhos começaram a largar lágrimas e, pouco depois, levou as mãos ao rosto para limpar as lágrimas que começaram a escorrer com maior velocidade.

Carregava a dor no peito e cada inspiração era só mais uma pá de terra que o fazia sentir-se soterrado. Dentro de si, o ar sufocava como se as cordas vocais fossem uma autoestrada no deserto e os pulmões um cemitério de sonhos. No seu peito sentia o peso da terra árida que lhe serviria de sepultura.

Pousou a foto na mesa ao lado da sua cama e o seu olhar passou pelo portátil aberto e pelas páginas que tinha escrito. Os olhos encheram-se de novo de lágrimas, desta vez com a força natural de uma tempestade que chega sem aviso e leva tudo à sua frente.

Queria dar-lhe um final feliz, uma história de protagonista, um romance com esperança, não um ponto final numa nota de rodapé num noticiário: "Homem morre afogado ao tentar salvar jovem de afogamento."

Porque raio te foste atirar ao mar, Rita? Porque raio foi ele levado e não tu?

 

 

Ana Sofia Alves

 

 

 

A quem me quiser ler: Parece que finalmente dei um final a esta pequena história que tinha na minha cabeça. Nada perfeito, eu sei, mas gostei deste rumo. Aquilo que eram textos dispersos começou a ganhar outra forma e eu comecei a ver uma história que não era minha e quis ir atrás deste pequeno desafio pessoal. Agora posso partir para outras paragens, como o comboio do Samuel. Para já, fica assim e espero não me arrepender da partilha. Um bem-haja a este cantinho da Internet que me faz querer dedicar um pouco mais do meu tempo à escrita, sem medo ou pretensões.