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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Visita à Tapada de Mafra

Sofia
31
Jul21

Estar noiva deixa-me com os nervos à flor da pele, mesmo que tenhamos decidido casar só daqui a uns dois anos. Dois anos não são nada numa altura em que parece que o tempo corre mais rápido, apesar de sentirmos que os nossos dias estão mais vazios do que dantes. Já saímos mais de casa, mas com o teletrabalho nunca se sai tanto como se saía e os dias tornam-se muito repetitivos. Embora o teletrabalho dê muito jeito e seja melhor em alguns aspectos, sair para trabalhar também tinha coisas boas. Os transportes públicos eram uma chatice, mas continuava a adorar comboios. Sempre me senti fascinada pelos comboios e gostava de um dia fazer uma grande viagem de comboio! Claro que no dia-a-dia os comboios têm alguns problemas que nos fazem rogar algumas pragas... Ainda assim, sair para trabalhar era estar mais exposta ao imprevisto e acho isso fascinante. O imprevisto tanto pode ser bom como mau, mas enche-nos os dias. Não é molhar o pezinho na água para ver se está fria, é mergulhar e depois sentir o frio.

 

Há uns tempos estivemos de férias e decidimos ir a Mafra no fim-de-semana. A pandemia apareceu e eu tinha um voucher do Odisseias por usar e já quase a expirar... Lá ganhámos coragem para passar uma noite fora de casa. Fez-nos bem. Soube a pouco e ao mesmo tempo foi muito. Precisávamos de uma lufada de ar fresco. Lufada? Qual lufada! Nós precisávamos de uma verdadeira ventania! Como não quisemos ir para muito longe, Mafra pareceu-nos uma boa opção porque poderíamos visitar a Tapada de Mafra. Já lá tínhamos estado em visitas de estudo, mas nenhum dos dois trouxe grandes memórias de lá porque as visitas pela escola não são feitas do mesmo modo que as visitas que fazemos por vontade própria.

Devido à pandemia, a Tapada de Mafra tem vários horários para os seus percursos e os bilhetes estão disponíveis para compra através do site. Foi fácil escolher um percurso e programar a nossa visita. Escolhemos o percurso verde. Fez-me bem percorrer aqueles 8 km em sossego (e com algum cansaço inicial por já não estar habituada e pelo facto de o percurso iniciar com uma subida). Se tínhamos dúvidas se iríamos conseguir ver javalis e gamos, as dúvidas foram dissipadas logo no início do percurso quando encontrámos uma mamã javali com as suas crias.

Como recordação da nossa visita à Tapada de Mafra trouxe um peluche de um javali. Não é tão bonito como os verdadeiros, mas serve-me de consolo. Quando era criança, queria muito um peluche de um javali por causa do filme d'O Rei Leão. Eu e a minha irmã dizíamos que éramos o Timon e o Pumba (por causa da magreza e pequenez da minha irmã e do meu peso um pouco excessivo) e queríamos muito ter uns peluches da dupla, mas nunca conseguimos encontrar um peluche do Pumba. A minha mãe foi connosco ao Colombo e procurámos insistentemente, mas sem sucesso, um peluche para a nossa colecção. Na altura, ir ao Colombo pareceu-nos uma coisa muito futurista. Nunca tínhamos visto um sítio tão grande e acreditávamos que por ser algo tão grande e recente iria ter o que procurávamos, porque uma coisa assim estava além da nossa imaginação da realidade. Como sabemos, a imaginação das crianças estende-se até ao infinito e mais além! (Já que estamos a falar da Disney e das recordações da minha infância, achei que esta frase ficava bem aqui. ) Uma imaginação tão grande proporciona-nos às vezes alguns dissabores, pois a realidade fica aquém daquilo que imaginamos. A ida ao Colombo para procurar um peluche do Pumba serviu-me de lição. Aprende-se desde pequeno que a realidade não é o que queremos ou o que parece. Depois há aqueles casos em que a realidade é mesmo bela e supera a imaginação, como os javalis e os gamos que vi ou as montanhas, vales, praias e outras formações maravilhosas que encontramos pelo mundo fora. Isso vale a pena e dá-nos fôlego!

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Uma aventura pela comida indiana

Sofia
28
Nov20

Ontem encomendámos comida indiana para o jantar. Como não estávamos muito virados para a cozinha e precisávamos de algo quentinho e reconfortante, optámos por dar a nossa ajuda a um dos restaurantes de que gostamos muito.

Uma vez em que lá fomos comemos um prato que adorámos, mas nunca nos lembramos do seu nome e, em vez de perdermos tempo a pesquisar (se calhar é o que as pessoas mais normais fazem), temo-nos divertido com tiros no escuro. Ontem foi o segundo tiro no escuro ao tentarmos acertar no prato que comemos em tempos. Da primeira vez que tentámos encomendar esse prato acabámos por descobrir o Tandoori Chicken. Nunca o tínhamos comido e foi uma agradável surpresa. O mais provável é que nunca o fossemos escolher no meio de tantas opções, por isso ainda bem que andávamos a tentar descobrir o outro prato. Ontem foi também uma boa descoberta: Chicken Biryani. De facto, foi um prato super reconfortante para uma noite fria.

Por momentos, pensámos que a encomenda não ia chegar. Primeiro, o restaurante estava um pouco demorado. Depois, quando o nosso pedido já tinha um estafeta associado, vimos que o estafeta tinha no seu perfil a nota de que o seu prato favorito era Chicken Biryani. Olha lá, esta senhor tem como comida favorita aquilo que encomendámos. Será que a comida vai chegar? Como houve uma demora pouco habitual, o estafeta desistiu e apareceu um novo que tinha no seu perfil a nota de que a sua comida favorita era comida indiana. Mesmo com os percalços e o medo de que o jantar desaparecesse no caminho (brincadeira, claro), o Chicken Biryani com o maravilhoso Naan chegaram. O estafeta pediu-nos desculpa pela demora e explicou-nos, enquanto fazia um ar feliz, que o restaurante estava com muitos pedidos. Ainda bem! Infelizmente estamos a viver uma crise que parece ter vindo para ficar e piorar. É bom saber que mais pessoas continuam a ir comer a restaurantes ou a encomendar.

De alguma forma temos de conseguir que as coisas funcionem. Não podemos despreocupar-nos, mas não podemos parar tudo. Esta é uma luta colectiva em que cada um individualmente pode ajudar os outros de algum modo. Talvez por isso seja também tão complicado... Quem nunca viu ou teve de jogar com um fussangueiro na equipa? Aqui os fussos podem estar nos dois lados. Preocupa-me e entristece-me quando vejo pessoas umas contra as outras e o extremismo a tirar o lugar ao bom senso, umas vezes talvez por medo, outras por egoísmo, outras por maldade...

Para quem é da linha de Sintra, o restaurante de que falei é o Namastey India, em Massamá. Já lá fui algumas vezes e também já tinha encomendado de lá mais vezes. Os funcionários são bastante simpáticos e a comida muito saborosa. Nunca me desiludiu. Com as alterações que tiveram de ser tomadas por causa da pandemia, não sei como é que o restaurante estará fisicamente, mas a comida recomenda-se. 

Memórias de uma noite de Verão no Loch Ness

Sofia
13
Ago20

Há músicas que nos transportam para outros espaços onde estivemos no passado. Comigo, a This is the life da Amy Macdonald que estava a tocar hoje na rádio transporta-me sempre para uma estrada algures na Escócia. Não a consigo localizar porque era noite cerrada, já passava da uma da manhã. Estava tudo escuro e a única luz eram as estrelas no céu e os nossos telemóveis que serviam de lanternas. Há nossa volta havia silêncio e só se ouvia o nosso barulho, o barulho de caminhar, as nossas conversas e, entretanto, as minhas colegas a cantarem a This is the life acompanhadas da música que saía do telemóvel. Cantavam tão bem! Na altura não sabia que pertenciam a um coro na Croácia, mas não deixaria de ser impressionante se soubesse. Fico sempre fascinada com os dons dos outros e feliz por poder assistir a algo que me desperta os sentidos. Não me posso considerar uma pessoa religiosa, ainda que acredite que existe algo mais, porque "life happens"  e o espírito crítico também, mas fui educada na religião católica e lembro-me, às vezes, da parábola dos talentos. Não gosto do seu tom ligeiramente severo e punitivo, mas concordo com a ideia de que devemos dar uso aos nossos dons, ao que temos.

Loch Ness, Escócia, Agosto de 2012

Fotografia tirada pela Nina K., uma das pessoas fantásticas que pude conhecer na Escócia.

 

Esta noite de Verão na Escócia parece-me sempre saída de um filme. O Loch Ness, uma fogueira, as estrelas, algumas latas de sidra, a música a tocar... Sobre a música, só me lembro de quando tocou Led Zeppelin, porque é uma das minhas bandas favoritas e porque acabámos a comentar a casa que o Jimmy Page teve naquela zona. No final, a família inglesa que nos tinha convidado a ir ver as estrelas despiu-se e mergulhou no Loch Ness. Não esperávamos o súbito desfecho e, apesar da mente aberta, não os decidimos acompanhar apesar do convite.

Regressámos entretanto para o hostel. Saltámos uma cerca por onde tínhamos antes passado mas que não me lembro de lá estar, se calhar porque o caminho não estava fechado na altura. Seguimos estrada fora sem que um único carro passasse por nós. Assustámo-nos um pouco com o barulho das ovelhas que acordámos com a nossa passagem e pensámos que estávamos a viver uma cena de um filme, esperando que não fosse um filme de terror onde um grupo de estudantes é encontrado no meio do nada por alguém menos bem intencionado e que pode até ser um assassino. Correu tudo bem e o caminho até ao hostel proporcionou-me um bom momento de contemplação. Para quem nunca se sentiu no meio de nenhures, é difícil descrever a sensação. Sentimo-nos libertos e no centro do mundo. Somos nós e o universo. Sentimos que o mundo é belo e que há tanto por descobrir.

Tive sorte em participar duas semanas num Erasmus de Verão. Conheci pessoas fantásticas. Aprendi mais sobre outros países e culturas. Aprendi mais sobre mim. Estudei coisas bastante interessantes. Vi das paisagens mais belas da minha vida, talvez até mais belas do que as que vi no Japão (e ir ao Japão era a minha viagem de sonho)! Os dias eram longos, mas não se sentia o tipo de cansaço que se sente habitualmente no dia-a-dia. Acordávamos cedo para ir para as aulas e ao final do dia aproveitávamos a sala comum para apresentações temáticas sobre os nossos países e para falarmos uns com os outros. Fui tudo tão intenso!

Lembrar, sempre

Sofia
25
Jul20

Secos e Molhados - Rosa de Hiroshima

 

Durante os últimos dias das minhas férias, como tinha um código que me oferecia um mês da HBO Portugal, aproveitei para ver a mini-série Chernobyl. Achei-a interessante porque humaniza a História, conta-nos histórias da História. Sem se tornar maçuda, a série consegue contextualizar-nos dentro da História e da Ciência, ao mesmo tempo que nos dá lições para o presente e futuro. Para mim, é essencial manter a História viva para que não nos esqueçamos do bom e do mau e possamos evitar que o mau se repita.

Há 10 anos tive a oportunidade de participar num programa de intercâmbio no Japão. Estive na província de Nagasaki e, de entre as várias coisas que vi, impressionaram-me as casas soterradas pelas erupções vulcânicas do Monte Unzen e o Museu da Bomba Atómica de Nagasaki. Nos dois casos, senti um enorme respeito por quem perdeu a vida em situações extremas e temor pelo desconhecido que nos pode abalar de um momento para o outro, embora os contextos sejam diferentes (diferentes também do caso retratado na série, bem sei). Em ambos os casos, existe uma homenagem às vítimas, mas, no segundo caso, procurou-se ir mais longe e criar um museu em que cada visitante pudesse parar no tempo, reflectir e sair com a ideia de que algo assim não pode voltar a acontecer. Saí de lá esgotada, sem palavras, mas recomendo a visita a quem for a Nagasaki. Na memória ficaram-me imagens de pequenos objectos que sobreviveram ao desastre, de estilhaços, de relógios parados na hora em que tudo aconteceu, de vidas que se perderam e outras que nunca mais foram as mesmas. Junto ao museu, no Parque da Paz, há uma estátua que pretende lembrar-nos do caminho a seguir. Conforme alguns estudantes me explicaram naquele dia, a mão apontada para o céu pretende lembrar-nos da bomba atómica, enquanto a mão estendida pretende simbolizar a paz.

Estátua da Paz, Nagasaki

Foto: Ana Sofia Alves

Brindemos aos primeiros dias!

Sofia
20
Jul20

Quando estamos em paz connosco ganhamos anos de vida. Tenho tendência para stressar demasiado, mas quero acreditar que os meus momentos de paz me vão ajudar a subir a minha média.

Sinto-me estupidamente bem porque fiz pela primeira vez um risotto. É uma coisa sem importância, mas que me deixou super bem-disposta e relaxada (se calhar o copo de Caiado branco que o acompanhou também contribuiu para isto, é verdade, mas não vamos pensar nisso).

Na primeira vez que fazemos algo novo, existe todo um nervosismo e temos tendência a dar todos os passinhos devagar. Tentamos ser rigorosos para não falhar, porque nos comprometemos a fazer algo e queremos levar tudo a bom porto. Não temos pressa, porque a pressa é inimiga da perfeição. Desfrutamos da aprendizagem e percebemos que bons resultados podem vir do tempo e da atenção. Quando o nosso empenho se transforma num bom resultado, ficamos felizes e até com algum orgulho, não há que ter vergonha em dizer.

No final da minha aventura culinária de hoje, acabei a transpirar tanto que mais parecia um alambique, mas, já o meu querido Pessoa dizia, "Tudo vale a pena / Se alma não é pequena".

Tento levar os meus dias como se fossem os últimos e os primeiros. Os primeiros, porque sei que vou dar sempre o meu melhor para não falhar. Os últimos, para não me esquecer que não há problema em falhar e que o importante é ser feliz.

Tenham uma boa noite!

 

Sérgio Godinho - O Primeiro Dia