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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

Serei velho quando o for. Mais Nada.

Sofia
16
Mai25

Esta semana os computadores não simpatizaram comigo. O meu computador pessoal decidiu ficar doido sempre que eu abria o explorador de ficheiros. Uma pequena demora em abrir e logo de seguida começavam a multiplicar-se janelas abertas e separadores. Janelas insistentes. Eu fechava-as e logo outras se abriam sozinhas.

Tentei várias soluções e seguir vários passos de vídeos de quem percebe mais do assunto, mas acabei por ter de formatar o bicho. Solução final, mas que resolveu o problema cuja a origem continuo sem conhecer.

Ainda esta semana, o computador do trabalho ameaçou morrer. Ecrã congelado, rádio parada com um prrrrrrrrr sem parar durante aquele momento de gelo. Depois, ecrã azul. Reacção: "Oh não! Ecrã azul da morte!"

Recordei momentos de pânico na adolescência em que ter um computador não era uma coisa assim tão comum. Em casa tínhamos um para a família e sabíamos bem o esforço que os pais tinham feito para que o tivéssemos. Ora, sabendo desse custo, qualquer erro, mesmo que pequeno, assustava-nos e fazia-nos logo imaginar um possível raspanete. Lembrei-me da Ana Sofia de 13 ou 14 anos em pânico porque o computador teve um erro, sem qualquer explicação. Quais desavenças com a religião, qual quê? Naqueles momentos de pânico, a minha revolta de adolescente não queria saber disso para nada e eu voltava-me para a estátua da Nossa Senhora que estava na sala e pedia-lhe mentalmente que me socorresse. Engraçadas as preocupações que temos e que mudam tanto com a idade. Estou para aqui a escrever um post sobre erros nos computadores e faço-o com alguma ligeireza porque, de facto, não é uma grande preocupação. Quando era miúda, um erro no computador tinha outra dimensão e o computador nem era tão utilizado como nos dias de hoje.

O computador continuava sem ligar e eu já me imaginava a sair de casa. Nisto, carreguei de novo no botão de ligar/desligar e ele lá se ligou. E o Wi-Fi onde é que estava? Escondido, só podia! Corrigida a questão da drive da placa de rede, lá consegui voltar ao trabalho. Foi um susto. Passada quase uma semana, já eu me sentia a voltar à "normalidade", eis que ontem o ecrã azul voltou... Desta vez a solução teve de ser sair de casa e ir ao local de trabalho.

Talvez por isso esteja aqui a escrever sobre estes erros. Não fosse o erro do computador, tinha sido só mais um dia como os outros. Até estava bem-disposta e cheia de energia, mas ia ser mais um dia no teletrabalho porque o meu joelho continua na dele e faço menos esforço assim... Sair de casa e ver pessoas, sobretudo pessoas com quem gostamos de lidar, faz sempre bem! O joelho continua na dele, mas há-de melhorar. (Tudo na mesma, como a lesma.) Aguardo uma data para a cirurgia. Hoje parece melhor, mas o naproxeno das enxaquecas tem esse poder de enganar a dor - ou tinha, pois eu já lhe descobri a careca e a mim não me engana mais.

No meio dos erros informáticos ou outras questões do ramo, achei a IA útil. Não sou céptica, mas tenho algumas reservas quanto ao uso da inteligência artificial. (Vejo demasiada ficção científica, sei lá!) Não consegui aderir à moda do estilo Ghibli e ainda sou mais team tio Google que team ChatGPT, mas, para ajudar a resolver pequenas questões de máquinas, tive respostas incisivas e bastante úteis da máquina.

Não sei o que o futuro me reserva, quanto mais o que estará reservado para todos nós. Como dizia o Álvaro de Campos: "Serei velho quando o for. Mais Nada."1

 

1 - Álvaro de Campos. "Aniversário"

Envelhecer nos tempos modernos...

Sofia
27
Mar21

Long time no see!

Gostava de cá ter passado mais vezes, mas não tenho tido vontade de escrever e mesmo as leituras de blogs e livros já tiveram melhores dias (apesar de gostar muito do Kobo que o meu namorado me ofereceu no Natal).

Com tanto tempo em casa e falta de paciência, tenho aproveitado para ver muitas séries e filmes que estavam por ver há imenso tempo. Como a RTP 2 passou alguns dos filmes que eu queria ver, aproveitei. Parece parvo... Podia chegar à Netflix, ir à minha lista e colocar os filmes a dar, mas havia sempre alguma coisa. Ou não sabia o que queria ver no meio de tantas coisas... Ou estava cansada e pensava que não valia a pena ver um filme que podia ver a qualquer momento... Foi preciso saber que os filmes iam passar na televisão para me decidir a vê-los. Lembrou-me os tempos de miúda quando não tínhamos televisão por cabo nem possibilidades de gravar programas ou voltar atrás. As coisas tinham outro sabor e outra importância porque não estavam acessíveis a qualquer momento. Odiava ter de ir à catequese aos Sábados de manhã porque isso fazia-me perder alguns episódios dos meus desenhos animados favoritos. Mesmo assim, conseguia ver muitos episódios de Pokémon e aqueles momentos eram especiais. Durante a semana, tinha aulas de manhã. Saía, chegava a casa, almoçava e sabia que tinha de me organizar para conseguir ver os Digimons na TV. Fiquei furiosa quando uma ida ao dentista coincidiu com a batalha final contra o Apocalymon. Na sala de espera, consegui ver quase todo o episódio, mas no momento da batalha fui chamada para o consultório. Naquela altura não imaginava que no futuro tivéssemos as facilidades que hoje temos e que fosse tudo tão instantâneo. Nunca me passaria pela cabeça que com um clique tivéssemos acesso ao outro lado do mundo, muito menos que esse clique passasse a ser um toque de dedo no ecrã de um telemóvel e que esse toque se traduzisse num acesso a incontáveis informações ou desencadeasse um conjunto de acções. Às vezes são informações a mais... Somos bombardeados com imagens, palavras, sons... Mas poder ter acesso a informações e a apreender tantas coisas continua a parecer-me algo bom. Afinal, o controlo é necessário em tudo.

Não vou falar das saudades que tenho dos tempos antes da pandemia. Todos as devemos ter e sentir, cada um à sua maneira. Que cansaço, que desorientação, que tristeza... Façamos por aproveitar todos os momentos, de uma forma ou de outra, porque deve ser o que importa no fim.

Entretanto, fiz 30 anos. Talvez seja por isso que me sinto assim. Estranha, feliz, rezingona... Ou talvez seja só culpa de estarmos a envelhecer nestes tempos modernos.

 

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

 

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...

 

Álvaro de Campos

Um poema para cada mês - Abril 2021

Sofia
10
Jan21

Continuando aquilo a que me propus, venho hoje partilhar mais um poema. Teria gostado de continuar com as publicações de dia 1 a 12 sem interrupções, mas a verdade é que, durante os dias úteis, não tenho paciência para estar no computador depois do horário de trabalho. Não me levem a mal. Tendo dito isto, é provável que as publicações sejam sobretudo aos fins-de-semana.

Em Abril, já estamos na Primavera que, para mim, é a estação em que podemos olhar à nossa volta e maravilhar-nos mais rapidamente com a beleza da natureza. Quando nos apercebemos, as ervas estão mais verdes, as flores aparecem para dar mais cor aos nossos dias, os dias estão mais luminosos, os pássaros ouvem-se cantar...

Partindo desta ideia, lembrei-me de que esta seria a altura ideal para partilhar Pessoa. Se dúvidas houvesse, a ideia do nascimento de Alberto Caeiro em Abril confirmou-me que seria ele o escolhido. Falar do que o Fernando Pessoa é para mim... Bem, podia dizer/escrever muita coisa, mas ia sempre ficar muito por dizer/escrever. Para mim, Pessoa foi o primeiro. Foi a grande descoberta, foi a grande paixão, foi a grande incógnita, foi o grande amor, foi a grande revelação... Ainda hoje o vou descobrindo e redescobrindo. Para quem também se sente assim quando fala de Pessoa, como foi descobri-lo? Deve ser uma recordação interessante. 

 

Quando vier a primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

 

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

 

Se soubesse que amanhã morria

E a primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

 

Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Brincar ao desassossego

Sofia
03
Jan21

Tenho de desabafar sobre este assunto... Não é bom cantar músicas quando estamos com demasiada energia e alegria dentro de nós... Além de perdermos a noção do volume, há uma grande probabilidade de se trocarem as letras... Por exemplo, ao cantar a "Bellevue" dos GNR, pode sair algo como "era só para brincar ao desassossego" em vez de "era só para brincar ao cinema negro". E vá-se lá perceber a escolha musical que, efectivamente, não combina com o estado da coisa...

( Bernardo Soares likes this post.)

 

P.S.: Peço desculpa se o título vos desiludiu e esperavam algo mais profundo. 

 

A minha vida é como se me batessem com ela.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego

Segue o teu destino

Sofia
08
Out20

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

 

Ricardo Reis