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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Da minha estante para o mundo #3

Sofia
30
Jul20

Tarrou avait perdu la partie, comme il disait. Mais lui, Rieux, qu’avait-il gagné? Il avait seulement gagné d’avoir connu la peste et de s’en souvenir, d’avoir connu l’amitié et de s’en souvenir, de connaître la tendresse et de devoir un jour s’en souvenir. Tout ce que l’homme pouvait gagner au jeu de la peste et de la vie, c’était la connaissance et la mémoire.

Albert Camus, La Peste

 

Os últimos tempos têm sido uma realidade alternativa que ninguém está à espera de viver. De repente, o mundo vive em conjunto um momento difícil. Individualmente e colectivamente vamos reagindo aos acontecimentos. Os dias vão passando de forma estranha porque temos de nos adaptar a uma realidade nova.
Tento pensar na História e como sempre a achei cíclica. Penso também na Literatura e em livros que já li. Os acontecimentos vão-se desenrolando, a nossa vida muda e adapta-se às novas situações. Um dia tudo passou e resta-nos esta memória individual e colectiva onde conhecemos o pior mas também o melhor que temos como humanos. Sabemos também pela História e pelas histórias que haverá dificuldades e perdas, mas resta-nos continuar e pensar que um dia tudo passou.
 
Dans certains cas, continuer, seulement continuer, voilà ce qui est surhumain.
Albert Camus, La Chute
 
As palavras não são de hoje, foram escritas há alguns meses, mas quis partilhá-las convosco e desejar-vos força, não só neste pedaço de história colectiva como também nas vossas histórias individuais. Porque é preciso continuar. Há momentos em que o importante é continuar.

Lembrar, sempre

Sofia
25
Jul20

Secos e Molhados - Rosa de Hiroshima

 

Durante os últimos dias das minhas férias, como tinha um código que me oferecia um mês da HBO Portugal, aproveitei para ver a mini-série Chernobyl. Achei-a interessante porque humaniza a História, conta-nos histórias da História. Sem se tornar maçuda, a série consegue contextualizar-nos dentro da História e da Ciência, ao mesmo tempo que nos dá lições para o presente e futuro. Para mim, é essencial manter a História viva para que não nos esqueçamos do bom e do mau e possamos evitar que o mau se repita.

Há 10 anos tive a oportunidade de participar num programa de intercâmbio no Japão. Estive na província de Nagasaki e, de entre as várias coisas que vi, impressionaram-me as casas soterradas pelas erupções vulcânicas do Monte Unzen e o Museu da Bomba Atómica de Nagasaki. Nos dois casos, senti um enorme respeito por quem perdeu a vida em situações extremas e temor pelo desconhecido que nos pode abalar de um momento para o outro, embora os contextos sejam diferentes (diferentes também do caso retratado na série, bem sei). Em ambos os casos, existe uma homenagem às vítimas, mas, no segundo caso, procurou-se ir mais longe e criar um museu em que cada visitante pudesse parar no tempo, reflectir e sair com a ideia de que algo assim não pode voltar a acontecer. Saí de lá esgotada, sem palavras, mas recomendo a visita a quem for a Nagasaki. Na memória ficaram-me imagens de pequenos objectos que sobreviveram ao desastre, de estilhaços, de relógios parados na hora em que tudo aconteceu, de vidas que se perderam e outras que nunca mais foram as mesmas. Junto ao museu, no Parque da Paz, há uma estátua que pretende lembrar-nos do caminho a seguir. Conforme alguns estudantes me explicaram naquele dia, a mão apontada para o céu pretende lembrar-nos da bomba atómica, enquanto a mão estendida pretende simbolizar a paz.

Estátua da Paz, Nagasaki

Foto: Ana Sofia Alves