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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

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um mundo num grão de areia

Crónicas em batom rosa choque

Sofia
03
Jul25

Ligaram-me no outro dia a pedir que fosse de novo à clínica repetir as análises. Não percebi bem o que tinha acontecido, sobretudo porque estava meio adormecida quando fui despertada pelo telemóvel, mas fiquei com a sensação de que o meu sangue não tinha sido suficiente para concluir as análises. Tencionava ir lá ontem depois da fisioterapia, porque gosto de despachar as coisas assim que possível, pegar o touro pelos cornos, dizem, mas estava um pouco cansada - feliz, cansada e ligeiramente aborrecida - e é bom pegar o touro pelos cornos, mas quando nos sentimos prontos para isso.

Fui hoje à clínica e decidi que, já que tinha de ir, ia pelo menos mudar de roupa. Por causa da fisioterapia ando sobretudo de calções. São do Benfica, são bonitos, confortáveis e práticos, mas também me fazia falta alguma "normalidade". Fui ao armário e tirei um dos primeiros vestidos ao de cima - verde e branco (não queria um contraste assim tão grande com os calções do meu clube do coração, mas achei piada à situação). Parecia que ouvia a voz da Dona L. a comentar em jeito de piada a cor do meu vestido. Bem gostaria de ouvir, porque já tenho saudades destes meus amigos benfiquistas! A Dona L. podia ser minha avó, mas a idade não é tudo. Quero ser assim cheia de energia quando crescer, como muitos destes meus amigos.

Não tive paciência para trocar a t-shirt branca por outra menos desportiva, mas não achei que ficasse assim tão mal por debaixo do vestido. O verde e branco só é que não podia ser! Hoje era dia de meter um dos meus batons, porque gosto de o fazer. Pensei se devia passar o lápis creme na linha d' água e meter um pouco de rímel e pó compacto, mas depois lembrei-me de que, além de não ter muito jeito, isso implicava ter paciência para perder mais tempo a desmaquilhar-me ao fim do dia. Fiquei-me pelo batom rosa choque, da cor da fita do cabelo, e peguei num perfume de embalagem da mesma cor. Sim, escolhi o perfume pela cor da embalagem... Todavia, sabia que era doce e fresco este Touch of Pink.

Estava eu a preparar-me e a pensar "temos de aproveitar a vida e sorrir a cada dia", quando o telemóvel apitou. No relógio apareceu uma mensagem que me dizia que o Diogo Jota tinha falecido. É sempre um murro no estômago quando alguém morre, mas, quando alguém parte jovem, é difícil não sentir ainda mais a fragilidade desta vida.

É difícil não ter a sombra da morte nos nossos pensamentos, ainda que os noticiários nos pareçam anestesiar de tanta repetição. Lembrei-me do meu propósito de celebrar o dia, celebrar a vida, mesmo com a sombra da morte a pairar nos meus pensamentos. Talvez seja mesmo isto o mais importante... Celebremos a vida que é tão frágil.

Já a caminho da clínica, pensei "Porque raio querem o meu sangue?" Lá me dirigi ao laboratório e toquei à campainha, como me explicaram para fazer. A técnica riu-se da situação, tal como eu. "Então estas análises foram pedidas para a cirurgia, a senhora já foi operada e agora pediu-se a repetição... Mas não é grave porque qualquer coisa que existisse, ia sempre ser vista no dia da operação." Foi simpática. No final disse-me "Bem, vou-lhe pedir para não fazer força, dentro do possível, por causa das canadianas." Ri-me e fiquei a pensar que gosto de pessoas simpáticas e que sabem dar aos outros essa simpatia até em pequenos detalhes.

Hora de voltar a casa. Chamei outro TVDE e esperei que desta vez corresse um pouco melhor. À ida, o motorista parou no outro lado da rua sem perceber onde eu estava e tive dificuldades em conseguir fazer algum sinal ou entrar em contacto pelo telemóvel. Podiam criar uma opção na aplicação que permitisse que o passageiro assinalasse que está condicionado e não se consegue deslocar com facilidade. (Se já existir, peço desculpa pela minha ignorância.) Há uns tempos, ainda antes da operação, chamei um Uber. Não andava de canadianas como agora, mas estava coxa e não conseguia andar rápido. O motorista parou também do outro lado da rua, eu tentei fazer sinal e fui à passadeira para atravessar a estrada. O motorista ainda lá estava quando eu comecei a atravessar a estrada, mas deve ter-se cansado de esperar ou nem percebeu que era eu que tinha pedido a viagem e foi à vida dele enquanto eu estava a terminar de passar a estrada. Foi-se embora e eu fiquei novamente à espera, resignada e frustrada.

O motorista do regresso percebeu que tinha sido eu a pedir a viagem e, ao ver-me de canadianas, quis ajudar e abriu-me a porta. Pediu desculpa por falar pouco Português e questionou-me se falava Inglês para me perguntar depois o que tinha acontecido. Expliquei que foi uma queda, à saída do trabalho, mas que agora há-de melhorar.

Com o carro parado nos semáforos, em Sete Rios, olhei ao longe, para a Estrada de Benfica onde tantas vezes me encontrei para almoçar com os meus amigos benfiquistas. Parece-me tudo na mesma, eu é que mudei. Lembrei-me do Livro do Desassossego - dos livros de contas, do patrão Vasques, da Rua dos Douradores. Nestes meus pensamentos, cheguei a uma espécie de conclusão. Todos nós temos um patrão Vasques, uma Rua dos Douradores... A nossa vida é pautada por repetições, marcos que se mantêm lá, mesmo que outras coisas mudem. Ali ao lado está o Parque Eduardo VII onde tantas vezes me sentei a ler na minha pausa de almoço. Se lá estivesse agora, aposto que o Parque estaria na mesma, só eu mudei. E se o patrão Vasques desaparecer? Teremos sempre a Rua dos Douradores. E se a Rua dos Douradores desaparecer? Teremos sempre aquelas árvores do parque que permanecem intemporais e pelas quais passamos de tempos a tempos. E se essas árvores desaparecerem? Teremos sempre o azul do céu. E se o céu mudar de cor? Haverá sempre uma brisa para nos acariciar. E se não houver mais vento? Sobrarão as palavras? As palavras também se esgotam, também cansam, também se apagam... Será que sobram os pensamentos? Será que existir se resume a esta ideia cartesiana?

Saí junto à passadeira e o senhor despediu-se dizendo "You are very nice and beautiful, and with a good name, Ana." (Sofia, gosto que me chamem Sofia, ou Ana Sofia. Para a família, contudo, serei sempre a Ana.) Agradeci os elogios que me deixaram sem jeito e voltei para casa a pensar se, afinal, o batom rosa choque não teria sido demais.

Acho que alguns pensamentos se perderam durante a viagem. Escrevo agora ao telemóvel e tento não me perder também. Será que nos sobram realmente os pensamentos se tudo o resto desaparecer?

O velho e o novo e o Tejo a passar ao lado

Sofia
22
Mai22

Bem sei que deixei de cá vir. Primeiro, faltava-me tempo. Depois, ganhei tempo, mas esse tempo tem sido usado para cuidar de mim.

Mudei de trabalho há 2 meses e, apesar de ter voltado ao trabalho presencial, ganhei muito mais tempo para mim. De facto, foi um dos motivos que me levou a arriscar e a aceitar uma nova aventura. Não é fácil tomar certas decisões, mas essas são aquelas decisões que vão definir a nossa vida. São decisões que calcam fundo no caminho que percorremos e que se transformam em marcos na passagem dos anos. Tem sido fantástico voltar a trabalhar presencialmente e nunca pensei desafiar-me ao ponto de estar num trabalho em que também lidasse com clientes presencialmente. Claro que tenho medo de ter arriscado e de, no fim, não ser este o meu lugar, mas é preciso avançarmos e não deixarmos que o medo nos paralise. Neste momento, sinto-me bem onde estou e é aqui que quero estar. A nível pessoal, a mudança de emprego fez-me voltar a ter mais tempo. Por muito que gostasse da minha antiga empresa, colegas e chefias, as horas de trabalho e o ritmo alucinante não me estavam a fazer bem. Agora, não tenho sentido tantas dores de cabeça como antigamente e, à noite, durmo muito melhor. Podia ter optado por tomar os ansiolíticos que o médico me passou, mas continuo uma teimosa e achei que seria melhor procurar um caminho diferente e que resolvesse as questões a fundo. A oportunidade apareceu-me numa altura em que eu precisava de mudar e, quando algo nos aparece sem procurarmos, deve ser um sinal de que afinal há algo mais para nós.

Talvez agora possa voltar a escrever mais no blog e fora dele. Estou a agarrar as rédeas da minha vida e a reencontrar-me e não podia estar mais feliz. Ontem celebrei 12 anos de namoro. No meio das mudanças, mantêm-se as melhores coisas. Passeámos pela nossa Lisboa como antigamente e fomos jantar aonde já tínhamos jantado noutros tempos. O tempo passa e há espaços que se mantêm nas nossas cabeças e nas cidades. Visitar Lisboa é agora mais agradável. A nossa vida profissional já não passa por Lisboa. No meu novo percurso do trabalho para casa passo pelos sítios da minha infância: a minha antiga praceta, as escolas onde estudei, o pequeno shopping local que me parecia enorme quando eu era uma criança, o meu antigo ginásio aonde penso agora regressar... Todo este novo percurso faz sentido. O velho e o novo juntos trazem-me o equilíbrio que eu tanto procurava recuperar.

Sejam felizes :)

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Lisboa, 21 de Maio de 2022

Numa outra vida

Sofia
15
Jul20

Há dias em que não se passa nada e esses dias são bons. São dias que trazem harmonia à nossa vida porque são tranquilos e permitem-nos equilibrar todas as emoções. Hoje tive um desses dias.

Sinto falta de tantas coisas que tinha antes da pandemia se ter instalado. Sinto falta de estar mais com a minha família; de combinar um jantar ou saída em grupo; dos passeios pelo parque à hora de almoço; das leituras no parque à hora de almoço enquanto os turistas se maravilhavam com a nossa capital, tirando fotos ou fazendo vídeos; das idas ao supermercado ao fim-de-semana para comprar alguns frescos, miminhos (naqueles dias em que nos apetece mesmo comer maracujás ou morangos ou croissants ou um gelado - ainda bem que não quero filhos... se já sou assim sem estar grávida) ou ingredientes específicos para uma nova receita que queria experimentar; dos passeios ao final do dia e ao fim-de-semana para caminhar e apanhar Pokémons; de ir ao cinema e jantar fora com o meu namorado para sairmos da rotina; de ter a minha sala apenas como sala e não como sala-escritório; de sair à rua e saber que não se passa nada, em vez de sair à rua e sentir que estamos todos ligados mais do que nunca neste pedaço de história colectiva.

Uma das melhores coisas do meu emprego era a sua localização que agora aproveito parcamente. É verdade que perder imenso tempo em transportes de casa para o trabalho e do trabalho para casa é desgastante, mas nunca tudo é mau e há que saber dar valor ao resto. Dei valor à localização do meu actual emprego ainda antes de lá estar, antes sequer de imaginar lá estar. Acho que o Universo conspirou a meu favor e, por essa razão, quando os dias são menos bons, tento pensar que há todo um propósito que desconheço e que me trouxe até onde estou. Posso seguir por outro caminho, mas talvez o melhor seja ver o que está para vir.

Foi há menos de um ano que mudei de emprego. Cerca de uma semana antes, o meu namorado ia participar numa corrida que iniciava no Jardim Amália Rodrigues / Parque Eduardo VII. Fui com ele até lá para juntos matarmos saudades de Lisboa. Durante a corrida, acabei por ficar no jardim a ler um livro que tinha acabado de comprar. Lembro-me de estar sentada no banco de jardim a pensar em como gostaria de trabalhar ali ao lado para poder desfrutar daquele parque e viver a minha cidade. Comentei isso com o meu namorado, mas rapidamente o assunto foi esquecido, pois não estava a pensar mudar de emprego de forma abrupta. Gostava muito do que fazia e gosto imenso da minha empresa, por isso, ainda que andasse com algumas angústias silenciosas por querer experimentar algo novo, não queria arriscar deixar algo que me fazia bem. Era Sábado, dia 7 de Setembro. Passados dez dias estava a começar uma nova fase da minha vida de forma inesperada. Numa semana foi-me feita uma proposta para mudar de projecto dentro da minha empresa. Senti um turbilhão de emoções e não pude deixar de pensar que algo tomava conta de mim. Naquela altura, senti que o Universo me estava a dar algo e que não podia recusar. De repente, tive uma oportunidade de mudar de emprego sem sair da minha empresa e a possibilidade de trabalhar na zona onde tinha imaginado que gostaria de trabalhar. Ainda hoje não sei bem o que me aconteceu. Nem sequer um ano passou, mas parece que foi uma eternidade.

 

(Obrigada à equipa do Sapo Blogs pelo destaque  )