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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

No princípio, os pés eram botões de rosa dourados

Sofia
02
Jan21

No princípio, os pés eram botões de rosa dourados

caminhando pela alba dos dias. Em linhas rectas ou

em círculos conjugavam verbos e lançavam o nome

do amor ao alto para que explodisse e se fixasse

ao céu. Assim, o céu seria sempre um céu de amor.

 

Os pés dançavam nas falésias e as pedras rolavam

até ao mar, principiando a queda dos corpos nus.

Depois, não havia pés para manter o corpo, não havia

rosas douradas e o céu reflectia nas cores do amor

o mar revolto e cinzento. As mãos uniram-se.

 

As mãos viraram o corpo do avesso e tornaram sua

a tarde, a noite e a nova alvorada. Construíram com

argila novas falésias e colaram com pingos de chuva

o que sobrou do naufrágio. Depois, os pés dançavam,

as mãos construíam e os corpos uniam-se à praia.

 

Ana Sofia Alves

2 de Janeiro de 2021

Estendo-me pelo horizonte falhado

Sofia
19
Dez20

Estendo-me pelo horizonte falhado.

As nuvens são bolas de papel amarrotado.

Aninho-me nestas nuvens

como um cordeiro que veio ao mundo se aninha junto à sua mãe.

 

Os meus desejos são raios de Sol que inundam o firmamento.

Estendo-me pelo horizonte.

As nuvens convivem com o Sol e eu sei que haverá chuva,

haverá bom tempo e, no fim, o esquecimento.

 

Alongo os braços e estendo-me pelo horizonte;

Alongo as asas que me nasceram no coração;

Alongo os pés que se transformam em brasas;

Alongo-me até ao espaço.

Exercito a imaginação, escolho um poema e uma canção

e danço e leio e escrevo.

 

Ana Sofia Alves

17 de Dezembro de 2020

Os sinos

Sofia
10
Out20

Ouvi ao longe os sinos. 

Havia anjos no céu, 

mas não os vi. 

Ouvi os sinos, 

ouvi apenas os sinos, 

aqui. 

 

Não houve melodias, 

apenas um som metálico 

que ficou a ressoar 

nos meus ouvidos, 

aqui, dentro de mim. 

 

Agora, sou eu, 

sou eu a badalar 

como sinos ao longe 

que nos querem acordar. 

 

Ana Sofia Alves

10 de Outubro de 2020

 

Chris Bell - Elevator To Heaven

 

(Ainda bem que voltei as blogs. Como ainda não renovei a licença do Word, tenho aproveitado um pouco este espaço em branco para estas pequenas coisas que preciso de tirar de dentro de mim, estes pequenos desassossegos. Enfim... Não gosto do Word online e o bloco de notas lembra-me o trabalho...)

Cadências

Sofia
09
Out20

Noite Estrelada Sobre o Ródano

Noite Estrelada Sobre o Ródano, Vincent van Gogh

(imagem da Wikipedia)

 

Trazes no teu sorriso a música de cada dia.

Perdemo-nos nas notas que sobem no ar, 

que passam os prédios, 

que chegam às árvores, 

que pousam junto da lua. 

Deslizamos os dedos pelo ar, 

agarramos as colcheias e abraçamo-nos 

numa pausa, num segundo que se faz eterno. 

Os olhos ardem ao luar, 

a música não se quer calar, 

os corpos vestem-se de cadências. 

Escrevemos histórias sem palavras, 

as mãos vibram e o ar fica mais pesado 

enquanto nos despojamos do nosso passado. 

A música enche-nos os copos quase vazios, 

gravamos memórias sonoras e esquecemos as horas. 

 

Ana Sofia Alves

9 de Outubro de 2020 

Natureza Morta

Sofia
19
Set20

Still Life with Bottle, Carafe, Bread, and Wine - Claude Monet

 Still Life with Bottle, Carafe, Bread, and Wine, Claude Monet

(imagem: National Gallery of Art)

 

 

Natureza Morta

 

No balcão está pousado um copo vazio

por onde escorreu uma gota de vinho

que deixou um pequeno rasto rubi.

Dois palmos para a esquerda,

encontramos um caderno fechado

e, ao lado, uma caneta com a tampa roída.

O balcão não tem já vida.

O bar já fechou e a luz que o ilumina

vem de um candeeiro do exterior.

Quase não há cor e os olhos esforçam-se

para ver melhor esta natureza morta.

Este é um palco onde todos os dias

homens e mulheres levam à cena

partes de uma gigantesca peça.

É este o palco onde nos escondemos

em representações de miúdos

quando já somos graúdos.

Cansamos a vida com cafeína

e algum álcool à mistura

porque a vida nos cansa.

O palco está sem vida,

agora que anoiteceu.

Lá fora, há uma avenida,

um carro que passa,

e está escuro como breu.

 

Ana Sofia Alves

18 de Setembro de 2020