Estática
Gostava que as minhas mãos fossem luz e as minhas palavras respirassem no teu ventre
Gostava que o universo que sou não estivesse preso à carne e ao sangue que me dão corpo
Fossem as asas reais, seria pó que viaja longe
Fosse eu pó, o meu corpo era uma praia e deitar-te-ias sobre ele
para que a areia te abraçasse enquanto as ondas te afagavam os pés já cheios de calor
Choro universos reclusos do tempo
Choro os corpos que se desgastam
Choro as chamas que procuram a destruição
E choro acima de tudo um coração pequeno que suporta o peso da vida
Hoje as lágrimas são momentos de estática por detrás da sinfonia da vida
A mesma frequência, a mesma insistência
Ao longe, há sempre um ruído que não cessa
A minha voz perde-se algures no corpo
Serei eu ruído também?
Ana Sofia Alves
28 de Novembro de 2025