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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

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um mundo num grão de areia

Filmes, bilhetes e cartas

Sofia
18
Jul25

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Tudo começou quando decidi usar a minha conta na MUBI para marcar todos os filmes que já vi (tarefa hercúlea e pouco realista). Gostei da plataforma e quase pondero subscrever o serviço. Talvez use o período experimental para me decidir. Para já, estou a organizar listas.

Ao fazer a lista de filmes vistos, estou a reviver anos de vida e a desenterrar inúmeras coisas. Lembrei-me d'A Pianista e em como esse filme foi brutal quando o vi. Anos mais tarde li o livro - ainda mais brutal. Se houve um livro que me deixou com mau estar, foi esse. Não foi pela história em si, mas pela história que ele me fez reviver. Vendi o livro depois de lido. Agora, talvez tenha de o voltar a comprar. Passaram-se anos e isso deixa-me capaz de lidar com os mesmos assuntos mas de modo diferente.

Tentei recordar-me de alguns filmes que vi no Cinema São Jorge em festivais de cinema. O que eu não estava a perceber era que os filmes eram um fio condutor de memórias. Lembrei-me dos primeiros anos de namoro e dos anos seguintes. Ao procurar os bilhetes que guardo, encontrei cartas que escrevi ao meu namorado há 15 anos atrás, há 10 anos atrás... Comecei a lê-las e as lágrimas não pararam. Chorei por tudo, porque tudo o que é belo faz-me chorar, faz-me ir ao fundo. Chorei porque fui e sou feliz. Continuo sem jeito para falar de amor, mas sinto-o. Sinto-o sempre bem fundo no meu peito e sei que é o amor que dá sentido às palavras embora também as torne irrisórias.

Nunca sabemos o que o futuro nos reserva, mas sonhamos e tomamos decisões com base nos nossos sonhos e, assim, vamos construindo o nosso futuro. Há 10 anos eu escrevia que queria continuar a partilhar a vida inteira com ele e dizia que queria também partilhar uma casa, ter com ele o nosso espaço. Hoje já temos a nossa casa e continuamos a partilhar a nossa vida. Hoje escrevo e digo-lhe que quero continuar a partilhar a minha vida inteira com ele, ele que sempre foi o meu melhor amigo, mesmo depois de começarmos a namorar.

As rotinas apagam-nos, tiram-nos charme. Às vezes sufoco com as rotinas e a minha alma esbraceja. É preciso esforço para não nos apagarmos e continuarmos a ser nós mesmos. A baixa tem-me feito pensar muito em tudo isto. Apercebi-me de que me estava a apagar nas rotinas. Continuava a ser eu, mas a minha chama estava menos viva. Aquilo que é meu, independentemente de ser compreendido ou partilhado, os meus gostos, as minhas emoções, estavam diluídos nos dias e aborrecimentos.

Espanto-me sempre com a capacidade que o meu namorado tem de aguentar o turbilhão de emoções vivas que eu trago em mim. Às vezes parece-me que ele não tem noção do quão forte é! Posso estar perdida dentro de mim ou dentro do mundo, mas olhá-lo nos olhos é como agarrar uma corda que me puxa de novo para cima.

Dizem que os olhos são os espelho da alma e até fazem programas sobre o que os olhos dizem. Tenho descoberto que, ainda assim, somos muito mais que olhos, gestos ou palavras.

Vou ali afogar-me em filmes, bilhetes e cartas. A minha alma está velha, mas nunca cansada.

 

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Senhor dos Anéis, A Irmandade do Anel

 

Fica a pergunta: quem mais gostaria que os bilhetes voltassem a ser como antigamente? Hoje os bilhetes são quase todos digitais. Apesar das vantagens, nem sempre são tão práticos e não dão para os guardar do mesmo modo. Tenho uma pasta no meu email com bilhetes digitais, mas não tem o charme de um envelope ou de uma caixa de cartão cheia de bilhetes, cartas e fotografias.

Pasito a pasito

Sofia
17
Jul25

A recuperação tem corrido bem. Já larguei uma canadiana. Em casa já ando sem nenhuma, sem exageros. Na fisioterapia, hoje, já comecei a largar a segunda canadiana e a fazer exercícios com o step. Também já vou fazendo exercícios com pesos. Devo ficar feliz porque, logo após a operação, recuperei a extensão da perna e tudo parece correr bem. Ainda assim, a minha perna esquerda lembra-me de como é que a perna direita era antes, da fluidez, da capacidade de hiperextensão... Tenho de me lembrar sempre de que cada dia é um novo dia, mas que a luta é a mesma e que o que importa é continuar. Já consigo ir fazendo coisas em casa e o meu pé já não me dá choques quando eu o pouso no chão. Tudo isto são vitórias e sinto-me grata.

Às vezes sinto saudades de dançar sozinha e até de correr. Há pouco o reggaeton puxou por mim e, devagarinho, mexi-me no meu quarto e fiquei feliz. Percebi que realmente estou a melhorar. Connosco temos de conviver a vida toda. É bom saber que o meu corpo já se aguenta em pé, inteiro. Correr é uma miragem, mas, quando me lembro da corrida na ponte Vasco da Gama, dá-me imensa vontade de correr. O meu namorado inscreveu-me nessa corrida e eu apenas ia andar como muitos outros fazem. Assim que a corrida começou, descobri uma vontade enorme de correr e, ainda hoje sem saber porquê, comecei a correr e a correr e a correr. Não ia preparada, mas acabei a correr quase 5 km e foram quase 5 km em que me senti bastante livre. Foi das melhores sensações que tive e, hoje, mesmo sem conseguir correr, não consigo deixar de me sentir bem e em paz ao recordar esta sensação que vivi. Essa corrida fez-me tão bem que acabei por me inscrever na corrida do Benfica - havia muita energia, mas faltou-me a frescura do rio de manhã. Na corrida do Benfica aguentei-me 6 km. A Avenida Lusíada venceu-me e nunca mais consegui lá passar sem sentir o calor e a transpiração daquele dia. Acabei bem, respeitei os meus limites, mas cheguei a casa e vomitei-me toda. Agora rio-me disso porque já nem me lembrava de ter ficado assim...

Já que estou numa de reggaeton e música latina, é bom lembrar-me "pasito a pasito".

Hei-de voltar a caminhar muito e fazer rotas - e ainda hei-de escrever sobre isso! Apercebi-me de que nunca aqui escrevi muito sobre as caminhadas pelo nosso belo país e que o podia fazer mais. Em 2023 mal aqui estive, mas, nas férias, fiz uma caminhada fantástica em Ferreira do Zêzere: Trilho da Pombeira. O Trilho da Pombeira é uma Pequena Rota circular de 10,2 km. Como não conduzimos, quando vamos fazer alguma rota, acabamos sempre a andar um pouco mais. Nesse dia saímos do hotel e só voltámos 19,10 km depois. Vimos paisagens belíssimas e estivemos no meio do nada. Quando regressámos, de tarde, ficámos de molho na piscina do hotel. Foram só 3 dias, mas pareceram uma eternidade de tão bons que foram! Felizmente, ao preparar a mochila, contrariei os meus medos e meti os biquínis na mochila. Teria sido mesmo um desperdício não ter aproveitado a piscina do hotel vazia ou a praia fluvial por causa das inseguranças...

Marselha 2024 - parte 1

Sofia
15
Jul25

Foi em Junho de 2024 que, num fim-de-semana grande, fomos a Marselha.

Tudo começou em Novembro quando, num jantar de aniversário, um colega meu deu a ideia de irmos ver Rammstein ao estrangeiro, já que em 2024 não viriam a Portugal. A ideia ficou ali na minha cabeça como uma semente que precisa de tempo para germinar. A ideia agradou-nos e, mesmo sozinhos, levámo-la avante.

Nunca tínhamos ido a um concerto no estrangeiro, mas pareceu-nos uma excelente ideia combinar a música com a vontade de viajar.

Mochilas às costas e com as t-shirts dos Rammstein vestidas, partimos à descoberta de Marselha, uma cidade mediterrânea que nos proporcionou bons momentos.

É verdade, Marselha tem uma má reputação. É uma cidade com problemas de criminalidade e é bom saber por onde andar e, se necessário, estar vigilante - nunca é demais. O som das sirenes é constante e algumas partes são sujas. Ainda assim, isso não me impediu de aproveitar a viagem e gostar da cidade. Viver a vida toda na linha de Sintra talvez me tenha preparado para a viagem... Antes não fosse verdade, mas é. Sujidade vejo eu todos os dias assim que saio de casa e as sirenes são uma constante também. Tenho sorte de não ter ido a pé para o trabalho com o caminho coberto por um rasto de sangue largado por um homem que morreu, como aconteceu com o meu namorado. Ao viajar gosto de deixar as coisas desagradáveis no sítio delas, mas, em Marselha, fui obrigada a lembrar-me delas. E o mais estranho? Achei Marselha mais limpa que a minha cidade... Marselha, a cidade que todos me diziam ser bastante suja.

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Assim que chegámos ao centro, tentámos ambientar-nos. A avenida estava em obras e percebemos que ali iríamos encontrar alguma sujidade. Fomos comer algo rápido e organizar melhor o nosso dia. Fomos sem grande planos - uma pequena lista de sítios por onde gostaríamos de andar e o resto seria uma descoberta.

Bebemos um café e ficámos agradavelmente surpreendidos. Está-nos no sangue beber um café, uma bica, um cheio... O primeiro foi a medo e foi uma agradável surpresa. O segundo foi um tira-teimas e os seguintes já foram sem medo - desfrutámos de cada momento. Bebi imenso café em Marselha. Que bom poder ter algo tão meu fora de casa! Disseram-me que tive sorte, que em França os cafés não costumam ser bons. Não achei sorte, achei que em Marselha a cultura do café é levada a sério, ao contrário do que possivelmente acontece noutras zonas.

Não vimos muita coisa no primeiro dia, porque era o dia do concerto dos Rammstein no Stade Orange Vélodrome. Excelente organização! Achei tudo bastante organizado. Até chegarmos à fila da nossa porta, havia imensos sacos de lixo colocados em barreiras e que todos iam usando - não vi imenso lixo no chão antes ou depois do concerto. Este tipo de organização teria sido benéfico, por exemplo, no concerto que a Taylor Swift deu no Estádio da Luz. Nesse dia, fui ver um jogo de basquetebol ao pavilhão e, ainda nem o concerto tinha começado, já o caminho estava cheio de latas de kombucha que já não cabiam mais nos caixotes a abarrotar.

Já no estádio, que é bastante bonito, conseguimos um lugar junto às grades do segundo palco. Ao nosso lado havia outros turistas, alemães. Na minha ingenuidade fui tirar uma foto com a opção de levantar a mão e o meu namorado teve de me alertar que estava a assustar os vizinhos alemães... Quem inventou a função de tirar selfies com o telemóvel levantando a palma da mão não devia ser alemão.

O concerto foi ainda melhor do que o concerto de 2023 no Estádio da Luz. O público francês também é um público brutal e a banda estava ainda mais à vontade - talvez pelo desfecho dos casos envolvendo o vocalista. Saímos do concerto e a avenida tinha imensa gente, alguns saídos do concerto e outros a aproveitar a noite de Sábado. Estava um ambiente agradável e, mesmo sendo tarde, sentimos que poderíamos continuar o caminho a pé até ao hotel. Pelo caminho havia alguns bares e padarias. Estávamos com fome e parámos numa padaria para comprar uma fatia de pizza para cada um. Era pequena, mas acolhedora e pronta para aviar rapidamente quem ia passando. Podia dizer: visitem este museu, visitem aquele sítio, comprem isto, comam ali... Não o faço e tenho consciência de que não tenho grande jeito para falar de viagens. Falo de viagens para falar de memórias. Sinto que o mais sincerto que posso dizer é: façam algo inesperado, surpreendam-se, vivam, criem memórias. Se o inesperado for encontrar uma padaria aberta depois da meia-noite e irem lá comprar algo para comer em andamento pela avenida com as estrelas como cúmplices, porque não? No fim, são estas memórias que mais calor nos trazem.

Continua...

Pensamento do dia #17

Sofia
05
Jul25

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A Persistência da Memória, Salvador Dalí

(imagem: Wikipedia)

 

A única vez em que me lembro de ter sentido medo de morrer foi a meio da noite, quando, há poucos anos, acordei com um ataque de pânico.

Não me lembro de ter sonhado nem me lembro de andar às voltas na cama. Lembro-me de acordar, sem aviso, com o coração a sair do peito ou da boca, completamente acelerado, e uma sensação de falta de ar que nunca tinha sentido.

Nunca tinha sentido algo assim, o corpo incontrolado e a querer levar-me sabe-se lá para onde. Senti que era um alerta grave, mas levantei-me e fiz por chegar à casa-de-banho. Comecei a sentir imensas tonturas, fraqueza e, pouco depois, imensos suores frios. Pensei que estava a ter um ataque cardíaco, que só podia ser isso, pois nunca tinha sentido algo assim tão forte. Não conseguia pensar direito e chamei pelo meu namorado que, adormecido, não percebeu nada do que se passava e me disse para molhar a cara. Tentei respirar fundo e molhar a cara. Não foi fácil, mas, como o problema não era fatal, embora o parecesse, foi possível voltar a mim.

A sensação de tempo, neste episódio, é estranha. Creio que foi tudo muito rápido e, ao mesmo tempo, bastante lento. Sei que tive medo de morrer e que me queria agarrar à vida.

Não foi nada, mas ficou-me na memória. Não se repetiu, mas a persistência da memória serve para lembrar os momentos e recordar-me de que é bom querermos agarrar a vida, mesmo no meio do absurdo. Temos esta capacidade louca de agarrar a vida, reconstruir e adaptar. Espanta-me sempre essa capacidade do ser humano que, mesmo em adversidades, tem esta capacidade louca de se reconstruir de corpo e alma.

Na época estava a trabalhar imenso e as enxaquecas eram frequentes e fortes. As enxaquecas não desapareceram e, mesmo depois da mudança de trabalho, tive alguns episódios em que tive de mergulhar no silêncio e escuridão do quarto e suportar os vómitos. (Talvez seja a náusea pela monotonia.) Gostava de pensar como a médica que me atendeu um dia: "Enxaquecas vai ter sempre: é ter a medicação à mão." Fosse tudo simples como esta frase.

Prefiro antes as palavras de Miguel Torga* e agarrar-me à persistência das memórias e à minha loucura:

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

 

* poema "Sísifo"

Pensamento do dia #14 (devaneios e memórias soltas)

Sofia
02
Jul25

A memória é uma coisa tramada...

Não me quero gabar, até porque não vejo isso como um grande feito e momentos há em que mais parece uma maldição, mas tenho uma grande memória.

Na escola era a memória fotográfica que me fazia recordar as páginas do caderno e dos livros e saber quase automaticamente a matéria de que precisava para responder à questão do teste.

No dia-a-dia, recordo-me imenso dos meus sonhos e pesadelos e não sei se é normal lembrar-me de coisas que sonhei com 10 anos ou ter momentos em que a minha cabeça me faz recordar um sonho qualquer que uma vez tive e julguei ficar esquecido. Acreditem, parece mesmo uma maldição porque tenho sonhos muito estranhos. Houve uma altura em que sonhava insistentemente com tsunamis. Era assustador! O último dos sonhos com tsunamis (se a memória não me falha - apesar de muito boa, também acontece) foi menos assustador porque eu já sabia tudo o que tinha de fazer e estava a liderar um grupo de pessoas. Nesse sonhos, escapámos todos ao ir para o ponto mais alto da cidade, onde estava uma igreja. Espero não ter de aplicar na prática estes simulacros da noite.

O mais estranho tsunami com que sonhei foi um tsunami com televisores no meio das ondas - tentei encontrar uma explicação e convenci-me de que era por ter começado a trabalhar na linha de apoio ao cliente de uma empresa de venda de electrodomésticos. A minha mente já estava tão farta de televisores de X, Y, Z polegadas... Na realidade, esse trabalho não começou nada bem. Primeiro porque acabei a fazer uma coisa para a qual não me tinha candidatado - fui excluída de um processo sem poder mostrar o que valia. Depois, foi a pior linha de apoio ao cliente em que trabalhei - as chamadas não paravam e os clientes, por causa dos electrodomésticos, transformavam-se em autênticos mafarricos. Num mês senti-me sugada e parecia um martírio levantar-me para ir trabalhar. Um dia auditaram-me uma chamada e escreveram que a assistente não tinha um sorriso na voz, parecia triste em chamada. Era tão verdade... Decidi abandonar a formação no dia em que ia assinar contrato e não querer saber do dinheiro que ia perder. Voltei a dar ar de maluca aos olhos dos outros, como já me aconteceu noutras situações. Como precisavam de alguém para ajudar na área de backoffice da equipa de vendas de telecomunicações e como eu tinha experiência em telecomunicações e backoffice, não precisei de desistir. Foi uma lufada de ar fresco e, mesmo não sendo uma mudança imediata, consegui aguentar aquela linha de apoio até sair de lá de vez. Quando dei por mim, fiquei praticamente sem colegas na equipa de vendas e proactivamente comecei a contactar os clientes que pediam contactos. Não nasci para ser vendedora, mas gostei imenso de o ter feito porque não estava a impingir serviços a ninguém - os clientes é que queriam ser esclarecidos e até fazer uma adesão. Acho que tive alguma sorte, pois pude fazer aquilo que acho que deve ser feito numa venda - esclarecer e ajudar, sem subterfúgios. O destino e a minha força (que eu pensava que tinha sido sugada), encarregaram-se de me fazer ver que sou capaz de mais. Quando fui excluída de um processo sem poder mostrar o que valia, a desistência de algumas pessoas e a minha falta de experiência em vendas foi o que levou à tomada da decisão. Se só precisavam de 3, não valia a pena começarem com 4. Faz sentido, mas foi um soco no estômago. Levei talvez um pouco demasiado a sério a situação, pois disse a mim mesma que iria ganhar experiência em vendas se a oportunidade surgisse - apenas para provar a mim mesma que também sou capaz, sem precisar de provar nada a ninguém.

Recordo-me de tantas coisas, mas continuo a não me recordar de certas coisas da minha adolescência. Acho que fiz por esquecer alguns anos e o sabor dos livros nas minhas mãos são as maiores recordações que tenho, porque eram o meu refúgio, o meu templo, como disse no post anterior. Não me esqueço também do grupo de teatro da escola e da professora Maria Clara que me marcou profundamente. E da professora Maria José das aulas de Francês. Na realidade lembro-me de muitas pessoas e nomes. Também não sei se é muito normal. Já cheguei a fingir não me lembrar de tantas coisas, de tantos detalhes, porque parece-me uma ligeira aberração e não quero assustar os outros. Por exemplo, há uns meses atendi um cliente no meu trabalho e reconheci a cara e o nome - era filho da pessoa que nos tinha vendido a casa. Só tinha visto o rapaz no dia da escritura e provavelmente só ouvi o nome dele uma vez, mas reconheci-o.

Na minha estante tenho uma edição do Cândido ou O Optimismo de Voltaire. Na primeira página está escrita uma dedicatória dos professores de Francês por ter ganho um concurso de tradução, mas eu não me lembro de ter participado em nada. Recordo-me de que, numa aula, a professora anunciou o resultado e deu-me este livro como primeiro prémio. Um outro colega recebeu outro livro por ter ficado em 2º lugar. Ainda assim, eu não me lembro do raio da tradução que fiz! Quero acreditar que participámos no concurso através de algum exercício feito em aula. Talvez, num momento de desatenção, me tenha escapado o pormenor de estar a participar num concurso de tradução... Fica difícil de imaginar porque eu estava sempre muito atenta. A minha capacidade de atenção era tão boa que ficava muitas vezes ao lado do aluno mais problemático. Mesmo com um colega de carteira falador e que gostava de me mostrar as ganzas que tinha no bolso para fumar, a minha atenção à aula não se perdia, nem sei bem como. As memórias, algumas perderam-se, mas ficam detalhes de coisas simples, como o colega falador, os livros que eu pousava na mesa para ler antes da aula começar, as noites de insónias porque não conseguia desligar do sentimento de incompreensão...

Não me recordo do concurso de tradução, mas recordo-me do concurso de escrita em que participei e ainda tenho o diploma guardado. Lembro-me do texto que escrevi e tenho pena de o ter rasgado e apagado num dos meus muitos momentos de dúvida. O texto começava assim: Comia uma maçã enquanto pensava na fragilidade da vida e em como gostaria de ser a Branca de Neve. Lembro-me vagamente do que tinha escrito. Veludo, era veludo! Já próximo do fim, aparecia alguém a bater à porta - era a vizinha que vinha pedir um niquinho de sal para fazer o jantar. Não me recordo se os dois amantes a ouviam ou não. Gostei do que tinha escrito, mas cometi o erro de apagar tudo numa das vezes em que disse a mim mesma que não voltaria a escrever. Que melodramática! O texto valeu-me o 1º lugar e uma amiga minha da época ficou em 2º ou 3º lugar. Fui receber o prémio, mas sempre fui tímida e sem jeito para lidar com pessoas. Naquele tempo ainda era pior. Aquela exposição era ensurdecedora e eu não ouvia nada, a não ser o meu nome a ser chamado. Deram-me os parabéns e um diploma. Olhei para o diploma e fiquei com cara de enterro, umas valentes trombas possivelmente registadas numa fotografia dos vencedores. Nisto, a minha amiga diz-me algo como "Parabéns! 1º lugar, muito bem!" Olhei de novo para o diploma e aquilo que me tinha parecido um 3 era, afinal, um 1. Senti-me estúpida pela cara de enterro, mas ainda fui a tempo de saborear um pouco aquele momento e sorrir. É impossível não me rir desta situação. Já se passaram tantos anos que isto passou a ter imensa piada.

Há páginas que não devo conseguir recuperar. Quero agora gravar ao máximo as minhas novas memórias, inscrevê-las na pele e, acima de tudo, lembrar-me de que a escrita faz parte do que sou e que não a posso negar.