A memória é uma coisa tramada...
Não me quero gabar, até porque não vejo isso como um grande feito e momentos há em que mais parece uma maldição, mas tenho uma grande memória.
Na escola era a memória fotográfica que me fazia recordar as páginas do caderno e dos livros e saber quase automaticamente a matéria de que precisava para responder à questão do teste.
No dia-a-dia, recordo-me imenso dos meus sonhos e pesadelos e não sei se é normal lembrar-me de coisas que sonhei com 10 anos ou ter momentos em que a minha cabeça me faz recordar um sonho qualquer que uma vez tive e julguei ficar esquecido. Acreditem, parece mesmo uma maldição porque tenho sonhos muito estranhos. Houve uma altura em que sonhava insistentemente com tsunamis. Era assustador! O último dos sonhos com tsunamis (se a memória não me falha - apesar de muito boa, também acontece) foi menos assustador porque eu já sabia tudo o que tinha de fazer e estava a liderar um grupo de pessoas. Nesse sonhos, escapámos todos ao ir para o ponto mais alto da cidade, onde estava uma igreja. Espero não ter de aplicar na prática estes simulacros da noite.
O mais estranho tsunami com que sonhei foi um tsunami com televisores no meio das ondas - tentei encontrar uma explicação e convenci-me de que era por ter começado a trabalhar na linha de apoio ao cliente de uma empresa de venda de electrodomésticos. A minha mente já estava tão farta de televisores de X, Y, Z polegadas... Na realidade, esse trabalho não começou nada bem. Primeiro porque acabei a fazer uma coisa para a qual não me tinha candidatado - fui excluída de um processo sem poder mostrar o que valia. Depois, foi a pior linha de apoio ao cliente em que trabalhei - as chamadas não paravam e os clientes, por causa dos electrodomésticos, transformavam-se em autênticos mafarricos. Num mês senti-me sugada e parecia um martírio levantar-me para ir trabalhar. Um dia auditaram-me uma chamada e escreveram que a assistente não tinha um sorriso na voz, parecia triste em chamada. Era tão verdade... Decidi abandonar a formação no dia em que ia assinar contrato e não querer saber do dinheiro que ia perder. Voltei a dar ar de maluca aos olhos dos outros, como já me aconteceu noutras situações. Como precisavam de alguém para ajudar na área de backoffice da equipa de vendas de telecomunicações e como eu tinha experiência em telecomunicações e backoffice, não precisei de desistir. Foi uma lufada de ar fresco e, mesmo não sendo uma mudança imediata, consegui aguentar aquela linha de apoio até sair de lá de vez. Quando dei por mim, fiquei praticamente sem colegas na equipa de vendas e proactivamente comecei a contactar os clientes que pediam contactos. Não nasci para ser vendedora, mas gostei imenso de o ter feito porque não estava a impingir serviços a ninguém - os clientes é que queriam ser esclarecidos e até fazer uma adesão. Acho que tive alguma sorte, pois pude fazer aquilo que acho que deve ser feito numa venda - esclarecer e ajudar, sem subterfúgios. O destino e a minha força (que eu pensava que tinha sido sugada), encarregaram-se de me fazer ver que sou capaz de mais. Quando fui excluída de um processo sem poder mostrar o que valia, a desistência de algumas pessoas e a minha falta de experiência em vendas foi o que levou à tomada da decisão. Se só precisavam de 3, não valia a pena começarem com 4. Faz sentido, mas foi um soco no estômago. Levei talvez um pouco demasiado a sério a situação, pois disse a mim mesma que iria ganhar experiência em vendas se a oportunidade surgisse - apenas para provar a mim mesma que também sou capaz, sem precisar de provar nada a ninguém.
Recordo-me de tantas coisas, mas continuo a não me recordar de certas coisas da minha adolescência. Acho que fiz por esquecer alguns anos e o sabor dos livros nas minhas mãos são as maiores recordações que tenho, porque eram o meu refúgio, o meu templo, como disse no post anterior. Não me esqueço também do grupo de teatro da escola e da professora Maria Clara que me marcou profundamente. E da professora Maria José das aulas de Francês. Na realidade lembro-me de muitas pessoas e nomes. Também não sei se é muito normal. Já cheguei a fingir não me lembrar de tantas coisas, de tantos detalhes, porque parece-me uma ligeira aberração e não quero assustar os outros. Por exemplo, há uns meses atendi um cliente no meu trabalho e reconheci a cara e o nome - era filho da pessoa que nos tinha vendido a casa. Só tinha visto o rapaz no dia da escritura e provavelmente só ouvi o nome dele uma vez, mas reconheci-o.
Na minha estante tenho uma edição do Cândido ou O Optimismo de Voltaire. Na primeira página está escrita uma dedicatória dos professores de Francês por ter ganho um concurso de tradução, mas eu não me lembro de ter participado em nada. Recordo-me de que, numa aula, a professora anunciou o resultado e deu-me este livro como primeiro prémio. Um outro colega recebeu outro livro por ter ficado em 2º lugar. Ainda assim, eu não me lembro do raio da tradução que fiz! Quero acreditar que participámos no concurso através de algum exercício feito em aula. Talvez, num momento de desatenção, me tenha escapado o pormenor de estar a participar num concurso de tradução... Fica difícil de imaginar porque eu estava sempre muito atenta. A minha capacidade de atenção era tão boa que ficava muitas vezes ao lado do aluno mais problemático. Mesmo com um colega de carteira falador e que gostava de me mostrar as ganzas que tinha no bolso para fumar, a minha atenção à aula não se perdia, nem sei bem como. As memórias, algumas perderam-se, mas ficam detalhes de coisas simples, como o colega falador, os livros que eu pousava na mesa para ler antes da aula começar, as noites de insónias porque não conseguia desligar do sentimento de incompreensão...
Não me recordo do concurso de tradução, mas recordo-me do concurso de escrita em que participei e ainda tenho o diploma guardado. Lembro-me do texto que escrevi e tenho pena de o ter rasgado e apagado num dos meus muitos momentos de dúvida. O texto começava assim: Comia uma maçã enquanto pensava na fragilidade da vida e em como gostaria de ser a Branca de Neve. Lembro-me vagamente do que tinha escrito. Veludo, era veludo! Já próximo do fim, aparecia alguém a bater à porta - era a vizinha que vinha pedir um niquinho de sal para fazer o jantar. Não me recordo se os dois amantes a ouviam ou não. Gostei do que tinha escrito, mas cometi o erro de apagar tudo numa das vezes em que disse a mim mesma que não voltaria a escrever. Que melodramática! O texto valeu-me o 1º lugar e uma amiga minha da época ficou em 2º ou 3º lugar. Fui receber o prémio, mas sempre fui tímida e sem jeito para lidar com pessoas. Naquele tempo ainda era pior. Aquela exposição era ensurdecedora e eu não ouvia nada, a não ser o meu nome a ser chamado. Deram-me os parabéns e um diploma. Olhei para o diploma e fiquei com cara de enterro, umas valentes trombas possivelmente registadas numa fotografia dos vencedores. Nisto, a minha amiga diz-me algo como "Parabéns! 1º lugar, muito bem!" Olhei de novo para o diploma e aquilo que me tinha parecido um 3 era, afinal, um 1. Senti-me estúpida pela cara de enterro, mas ainda fui a tempo de saborear um pouco aquele momento e sorrir. É impossível não me rir desta situação. Já se passaram tantos anos que isto passou a ter imensa piada.
Há páginas que não devo conseguir recuperar. Quero agora gravar ao máximo as minhas novas memórias, inscrevê-las na pele e, acima de tudo, lembrar-me de que a escrita faz parte do que sou e que não a posso negar.