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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

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um mundo num grão de areia

Pensamento do dia #19 (A Arte e a Vida)

Sofia
08
Jul25

Estava na fisioterapia, com gelo sobre o joelho, e ia ouvindo algumas conversas. Gosto de observar e ouvir conversas. Podem chamar-me cusca, não me importo. Gosto de observar e ouvir, sem qualquer intenção de comentar ou entrar na história. Não me quero meter na vida dos outros ou sequer opinar sobre elas. Muitas vezes, nem sequer pensar sobre elas - apenas contemplar. Hoje, ali deitada, não pude deixar de pensar que, realmente, a arte tenta imitar a vida, como já na Grécia Antiga se dizia.

As palavras que tentam construir mundos, os diálogos e paisagens nos filmes que tentam reproduzir o que já conhecemos, os quadros e fotografias que tentam captar pedaços do mundo... Tudo isso, mesmo criando algo novo, mesmo tentado criar algo novo, tem por base esta sede de vida, de replicar, replicar, replicar. Não há nada de errado nisso, porque, nesta sede de vida, de sentimentos, de sensações, de emoções, constroem-se coisas belas, tão belas que se tornam vida também. A arte começa a imiscuir-se na vida e, nisto, a própria vida começa a imitar também a arte. Recordei-me de um ensaio da Iris Murdoch que se debruça sobre este tema e que li em tempos. Queria encontrá-lo, mas não o consegui ainda encontrar. Talvez aproveite a deixa para me lançar aos livros dela como já gostaria de ter feito.

Esta ideia de replicar e tentar atingir o inatingível fascina-me também, porque, acreditando eu que a vida é absurdamente bela, vejo isto quase como a melhor forma de imitação possível. Este caminho que, felizmente, continuamos a perpetuar, torna a arte vida. Já não é só uma imitação. Já não é só a arte a misturar-se com a vida. A própria arte transforma-se em vida.

Deitada na fisioterapia, tinha ideias sobre isto e queria escrevê-las. Na minha cabeça, o texto ia-se construindo e eu já só esperava não me perder até chegar a casa. Tentava guardar todas estas ideias naquela gavetinha do meu cérebro, para depois as poder recuperar. Perdem-se, quase sempre, ideias e palavras no caminho, mas ganham-se outras quando começamos a escrever. Apercebo-me de que eu escrevo também para tentar replicar, para tentar recuperar algo, para tentar criar algo novo. Não é novidade, mas faz-me bem criar estas ligações entre as ideias, a escrita e o meu Eu. Pensei que gostava que existisse uma máquina que me permitisse guardar os pensamentos e transcrevesse os textos que escrevo apenas na minha cabeça. Era útil, mas, desse modo, não ia ganhar aquilo que se ganha enquanto tentamos recuperar algo.

Desde que o gelo foi retirado e me levantei, muitas coisas se passaram: fiz 3 minutos de bicicleta, fui escada fora na cadeirinha automática (desta vez em versão quase self-service, o que me deixou sorridente pela "autonomia" - não que não conseguisse subir de canadianas, mas sei que ali não é suposto criar situações de risco; foi bom explicarem-me os botõezinhos e deixarem-me ir em segurança sem ter de esperar por alguém), cheguei a casa e andei, aos poucos, a fazer pequenas coisas (dar água às gatas, abrir mais os estores e as janelas, trazer a garrafa de água de 1,5l da cozinha, pegar no Kobo e trazê-lo para o quarto, pegar no computador e trazê-lo para o quarto - enquanto pensava que se calhar estava a querer demais)... Claro que algo se pode ter perdido pelo caminho, mas a vida também se imiscui, tantas vezes, na arte. Digo arte e sinto-me ousada, mas, não faz mal, porque a ideia é boa.

Penso que escrever sobre a nossa própria vida é também uma forma de imitar, recuperar e criar. Escrever, mesmo banalidades, é criar, é construir uma obra. Somos obras sempre em construção. Escrever diários ou escrever blogs que parecem diários não é mau. Alguns falam de auto-conhecimento. É verdade. Mas é mais do que isso. Tornamo-nos (ainda mais) protagonistas da nossa vida. Os eventos banais tornam-se acontecimentos. Nunca desprezei quem escreve e descreve os seus dias, quem partilha pequenas banalidades. Eu faço-o e muito. Penso que, depois deste meu pequeno devaneio, consigo perceber ainda melhor o porquê.

Despeço-me com as palavras de Sartre, n' A Náusea:

Eis o que pensei: para o acontecimento mais banal se tornar uma aventura é preciso, e é bastante, que nos ponhamos a contá-lo. É o que engana as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias: vive cercado das suas histórias e das de outrem, vê tudo quanto lhe sucede através delas; e procura viver a sua vida como se estivesse a contá-la.

Escrever

Sofia
23
Jul20

Costuma-se dizer das fotos "para mais tarde recordar". Esta faz parte da série "para mais tarde apagar", mas tudo bem.
Também é provável que altere coisas que escrevi — apesar da escrita intermitente, há um caminho que tenho vindo a fazer e que se tornou claro mais recentemente. Se antes não mexia no que tinha escrito, agora aceito essa ideia porque permite-me seguir aquilo em que acredito — ser fiel a mim mesma. (22/06/2020)

As palavras anteriores mantém-se, apesar de as ter escrito há um mês. Assim, não estranhem se este post vier a desaparecer. As promessas são para se cumprir, por isso, não posso prometer que este post permaneça aqui para sempre. De qualquer modo, hoje acordei com vontade de partilhar o último poema que escrevi.

Já passou um mês desde a última vez que escrevi um poema... Tal como escrevi antes, a escrita é intermitente, por isso posso passar alguns períodos sem escrever. Para além disso, há uma certa sensação que me assola de que tenho de escolher viver ou escrever, porque, no momento em que escrevo, estou alheada do resto e, no momento em que vivo, estou alheada da escrita. N'A Náusea, Sartre escrevia que era preciso escolher viver ou contar. Não é bem o mesmo, mas há um elo que me une a esta ideia.

Depois de divagar um pouco sobre o que é escrever para mim, deixo-vos um poema sobre a escrita (mais um, é verdade, mas, desta vez, este foi escrito por mim).

 


Escrevemos e esquecemos,
bebemos mais um copo,
engolimos lentamente
os prazeres nocivos desta vida.

Desejamos cada gota de tinta,
cada pequeno pedacinho de papel,
cada fotografia que guardamos na nossa memória
para mais tarde lembrar.

Lembramo-nos depois porque
queríamos esquecer
a realidade vívida e com cheiros
e cores e sensações
que era por vezes demais.

Com os dedos, escrevemos
na terra molhada
e vamos ao fundo
para de novo abraçarmos a Primavera
e fazermos parte do mundo, das cores,
dos cheiros, das sensações.

Escrevemos com os ossos que estalam,
com os olhos que se tentam manter abertos
quando o corpo quer descanso.
Escrevemos na areia para nos tornarmos leves e nómadas
sem sairmos do nosso chão.

Escrevemos porque estamos em combustão.
Ardemos desde o nosso primeiro dia
e não há água que nos sacie.
Levamos o mundo no nosso peito
a arder
desde o primeiro dia.

 

Ana Sofia Alves