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a world in a grain of sand

um mundo num grão de areia

a world in a grain of sand

Envelhecer nos tempos modernos...

Sofia
27
Mar21

Long time no see!

Gostava de cá ter passado mais vezes, mas não tenho tido vontade de escrever e mesmo as leituras de blogs e livros já tiveram melhores dias (apesar de gostar muito do Kobo que o meu namorado me ofereceu no Natal).

Com tanto tempo em casa e falta de paciência, tenho aproveitado para ver muitas séries e filmes que estavam por ver há imenso tempo. Como a RTP 2 passou alguns dos filmes que eu queria ver, aproveitei. Parece parvo... Podia chegar à Netflix, ir à minha lista e colocar os filmes a dar, mas havia sempre alguma coisa. Ou não sabia o que queria ver no meio de tantas coisas... Ou estava cansada e pensava que não valia a pena ver um filme que podia ver a qualquer momento... Foi preciso saber que os filmes iam passar na televisão para me decidir a vê-los. Lembrou-me os tempos de miúda quando não tínhamos televisão por cabo nem possibilidades de gravar programas ou voltar atrás. As coisas tinham outro sabor e outra importância porque não estavam acessíveis a qualquer momento. Odiava ter de ir à catequese aos Sábados de manhã porque isso fazia-me perder alguns episódios dos meus desenhos animados favoritos. Mesmo assim, conseguia ver muitos episódios de Pokémon e aqueles momentos eram especiais. Durante a semana, tinha aulas de manhã. Saía, chegava a casa, almoçava e sabia que tinha de me organizar para conseguir ver os Digimons na TV. Fiquei furiosa quando uma ida ao dentista coincidiu com a batalha final contra o Apocalymon. Na sala de espera, consegui ver quase todo o episódio, mas no momento da batalha fui chamada para o consultório. Naquela altura não imaginava que no futuro tivéssemos as facilidades que hoje temos e que fosse tudo tão instantâneo. Nunca me passaria pela cabeça que com um clique tivéssemos acesso ao outro lado do mundo, muito menos que esse clique passasse a ser um toque de dedo no ecrã de um telemóvel e que esse toque se traduzisse num acesso a incontáveis informações ou desencadeasse um conjunto de acções. Às vezes são informações a mais... Somos bombardeados com imagens, palavras, sons... Mas poder ter acesso a informações e a apreender tantas coisas continua a parecer-me algo bom. Afinal, o controlo é necessário em tudo.

Não vou falar das saudades que tenho dos tempos antes da pandemia. Todos as devemos ter e sentir, cada um à sua maneira. Que cansaço, que desorientação, que tristeza... Façamos por aproveitar todos os momentos, de uma forma ou de outra, porque deve ser o que importa no fim.

Entretanto, fiz 30 anos. Talvez seja por isso que me sinto assim. Estranha, feliz, rezingona... Ou talvez seja só culpa de estarmos a envelhecer nestes tempos modernos.

 

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

 

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...

 

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...

 

Álvaro de Campos

Lembrar, sempre

Sofia
25
Jul20

Secos e Molhados - Rosa de Hiroshima

 

Durante os últimos dias das minhas férias, como tinha um código que me oferecia um mês da HBO Portugal, aproveitei para ver a mini-série Chernobyl. Achei-a interessante porque humaniza a História, conta-nos histórias da História. Sem se tornar maçuda, a série consegue contextualizar-nos dentro da História e da Ciência, ao mesmo tempo que nos dá lições para o presente e futuro. Para mim, é essencial manter a História viva para que não nos esqueçamos do bom e do mau e possamos evitar que o mau se repita.

Há 10 anos tive a oportunidade de participar num programa de intercâmbio no Japão. Estive na província de Nagasaki e, de entre as várias coisas que vi, impressionaram-me as casas soterradas pelas erupções vulcânicas do Monte Unzen e o Museu da Bomba Atómica de Nagasaki. Nos dois casos, senti um enorme respeito por quem perdeu a vida em situações extremas e temor pelo desconhecido que nos pode abalar de um momento para o outro, embora os contextos sejam diferentes (diferentes também do caso retratado na série, bem sei). Em ambos os casos, existe uma homenagem às vítimas, mas, no segundo caso, procurou-se ir mais longe e criar um museu em que cada visitante pudesse parar no tempo, reflectir e sair com a ideia de que algo assim não pode voltar a acontecer. Saí de lá esgotada, sem palavras, mas recomendo a visita a quem for a Nagasaki. Na memória ficaram-me imagens de pequenos objectos que sobreviveram ao desastre, de estilhaços, de relógios parados na hora em que tudo aconteceu, de vidas que se perderam e outras que nunca mais foram as mesmas. Junto ao museu, no Parque da Paz, há uma estátua que pretende lembrar-nos do caminho a seguir. Conforme alguns estudantes me explicaram naquele dia, a mão apontada para o céu pretende lembrar-nos da bomba atómica, enquanto a mão estendida pretende simbolizar a paz.

Estátua da Paz, Nagasaki

Foto: Ana Sofia Alves

Pensamento do Dia #3

Sofia
21
Jul20

Desde que esta coisa da Covid apareceu que ficámos todos meio desnorteados (ou desnorteados por completo).

Desde quando é que as qualificações do mundial de Snooker são em Julho e o mundial em Julho-Agosto? 

O mundial de Snooker tem muita tradição para mim. Acontecia sempre numa época atarefada da faculdade e eu tinha de alternar o estudo com a TV. Mais tarde comecei a trabalhar e deixei de ter de me preocupar com o estudo ou com os trabalhos da faculdade. A minha única preocupação passou a ser o cansaço, coisa de adultos. Mesmo assim, continuei a relembrar a tradição. Como é que eu vou relembrar agora a tradição se o mundial vai acontecer num período que cheira a praia, a banhos de Sol e de mar?

No meio disto tudo só não me perco nos dias e meses porque, desde que mudei de emprego, passei a saber sempre a quantas ando graças às datas de fecho de extractos e de limite de pagamentos. Sabem aquela pessoa que pergunta se hoje é dia 20 ou 21? Já não sou eu. Passei a ser aquela pessoa que diz "Hoje é dia 21" e pensa "É dia 21, porque amanhã é dia 22 e é uma data limite de pagamento".